quinta-feira, 18 de novembro de 2010

NIETZSCHE ( IV ) - Superação da Metafísica

Na medida que Nietzsche, com o anúncio da morte de Deus, traça o limite da metafísica em que o mundo supra-sensível se torna uma mera fábula, desmoronando por obra humana, faz-se necessário que nos detenhamos a considerar o lugar de onde o filosofo faz tal anúncio, ou seja, sua posição essencial em relação à metafísica. Nada mais obvio é supor que aquele faz a experiência do fim da metafísica, anunciando seu fim, já não mais pertence a essa forma de saber. Mas justamente aqui o obvio poderia nos enganar. Se Nietzsche, invertendo a metafísica platônica leva-a ao acabamento não seria isso sinal de que ainda participa da sua história ao menos como personagem final? É nesse sentido histórico que o fim da metafísica se transforma em seu acabamento, quando se recolhe sobre sua própria história e encerra as possibilidades de sua subsistência.
            Deparamo-nos com duas possibilidades distintas de pensar o fim da metafísica através da radicalização do pensamento de Nietzsche: a primeira considera o pensamento nietzscheano como a inauguração de uma nova forma de pensar sem metafísica através do método genealógico, esta encontra ressonância entre os principais comentadores e filósofos da obra de Nietzsche. Por outro lado, pode-se considerar como foi dito que a inversão do platonismo, segundo o qual Nietzsche tenta pensar o mundo de forma unitária, ainda permanece, historicamente, como episódio final da história da metafísica, esta, cujo estatuto não encontra, aparentemente, justificativa na filosofia de Nietzsche concede o estatuto do presente trabalho e da nossa pesquisa de modo geral. Para tanto, recorreremos seus ao conceito mais originário (genético) de sua obra: a Vontade de Poder [Wille zur Macht][1], e nos dirigiremos ao pensador que propriamente pretendeu revelar o caráter metafísico do opus nietzscheano: Martin Heidegger.
            Em vista disso, recorreremos à interpretação heideggeriana do pensamento de Nietzsche e, expandindo os horizontes de nossa pesquisa, traçaremos os pressupostos da metafísica nietzscheana através da reinserção da mesma no conjunto da tradição metafísica ocidental de Platão à Descartes, visto que, para compreendermos como é possível conceber Nietzsche como o último metafísico, é necessário percorrer novamente, e em linhas gerais, a história da metafísica tal como é entendida por Heidegger. A primeira parte do presente trabalho atém-se, portanto à perspectiva heideggeriana da história da metafísica enquanto história do esquecimento do Ser [Seyn][2], a fim de buscar nas suas origens gregas os pressupostos de seu acabamento em Nietzsche. Antes, porém, tentaremos introduzir brevemente o conceito a ser estudado.
            O termo vontade já aparece desde O Nascimento da Tragédia, utilizado sempre no sentido schopenhaueriano, o que poderia nos levar a crer que a vontade de poder – enquanto conceito próprio do pensamento de Nietzsche – tem sua origem na influência exercida por Schopenhauer sobre a primeira fase do pensamento nietzscheano. Contudo, não devemos exagerar a proximidade de Nietzsche e Schopenhauer, sua influência, na verdade, encerra-se na primeira fase da obra de Nietzsche, sendo rejeitada subseqüentemente. Fato é, porém, que os escritos da primeira fase, apesar de já demarcarem o campo de embate da crítica nietzscheana à moral e à metafísica – como em Humano demasiado Humano, de 1878 – ainda deixam os alvos de seus ataques se dispersarem pelo espaço ainda não sistematizado de seu procedimento. O embate sistemático, através da reunião de todo o pensamento em direção a um núcleo conceitual, só se tornará possível com os conceitos oriundos da radicalização do procedimento genealógico a partir de Assim falava Zaratrusta de 1884.
            A chamada “fase de reconstrução” inicia-se com o Assim falava Zaratrusta e com os novos conceitos que, a partir do método genealógico, centralizam a critica nietzscheana e o seu pensamento de modo geral diante dos mais diversos objetos abordados: “os novos conceitos que surgem a partir do Zaratrusta – a vontade de poder; eterno retorno  e além-do-homem – constituem o diferencial que permitirá a Nietzsche referir-se a uma linguagem própria para tratar de assuntos próprios.”(PASCHOAL, 2003: 39) As obras posteriores ao Zaratrusta organizam-se genealogicamente em torno da vontade de poder compreendida como vontade orgânica. Tal concepção dá subsídios à crítica nietzscheana dos valores morais e ao projeto de transvaloração de todos os valores, uma vez que, a vida concebida como vontade de poder estabelece um o estatuto de uma valoração segundo a impossibilidade de ser ela mesma avaliada. Assim a vida como valor ultimo aparece como fundamento de uma critica aos valores morais e metafísicos. Tal aspecto do biologismo de Nietzsche já se faz presente desde o aparecimento do conceito de vontade de poder, quando o filósofo concebe, tal como nos indica Scarlett Marton:
“a vontade de poder como vontade orgânica: ela é própria não unicamente do homem, mas de todo ser vivo, mais ainda: exerce-se nos órgãos, tecidos, e células, nos numerosos seres vivos microscópicos que constituem o organismo”(MARTON, 2001:20).
Nesse sentido, quando Nietzsche afirma que a vida é vontade de poder, isso quer dizer primeiramente que ela: “deseja fundamentalmente um máximo de potência; não propriamente uma conservação ou uma adaptação, mas um aumento, uma expansão, uma intensificação de potência” (MACHADO, 1985: 79). Tal definição que nos fornece Roberto Machado deixa claro não só o caráter da vontade de poder, pensada biologicamente, como também, a distância do pensamento de Nietzsche de qualquer tipo de darwinismo.
            Embora nos primeiros escritos em que aparece a vontade de poder seja identificada à vida, tal identidade será inflexionada a partir de uma gradativa universalização do conceito, que já poder ser observada em Além do bem e do mal e nas obras posteriores. A vontade de poder, como nos indica Scarlett Marton, “aparece agora como explicação do caráter intrínseco da força”(MARTON, 2001: 20).
            Em Além do bem e do mal, obra imediatamente posterior ao Zaratrusta e que reúne praticamente todos os temas e ramificações da filosofia de Nietzsche – da crítica á moral e à metafísica a curiosos aforismos sobre sexualidade e mulheres –, a vontade de poder aparece de forma ainda mais universal e abrangente. Encontraremos nela a problemática afirmativa que se encontra no cerne de nosso trabalho: “o mundo visto de dentro, o mundo definido e designado conforme seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de poder’, e nada mais” (NIETZSCHE, 1992:43). Tal afirmação que também encontramos ainda em um dos fragmentos póstumos, é o que nos autoriza a pensar a vontade de poder enquanto doutrina ontológica, ou seja, a totalidade do ente efetivamente presente (o mundo) e por isso mesmo visível ao intelecto (inteligível). Isso significa é claro uma inversão do pensamento platônico – como o próprio Nietzsche afirmou –, mas talvez não signifique uma ruptura com a metafísica, e sim sua inversão e seu acabamento.
            Heidegger tomará não apenas o fragmento citado, mas também outras obras e diversos fragmentos póstumos que deveriam, segundo ele, formar o corpo da principal obra de Nietzsche, A vontade de poder, para elaborar sua leitura da filosofia nietzscheana e postular seu primado ontológico. É preciso considerar, antes de tudo, que a interpretação heideggeriana obedece a parâmetros de uma hermenêutica na qual a pretensão de objetividade é abandonada em favor de uma singular forma de compreensão que rege as leituras de Heidegger não apenas da obra de Nietzsche, como também de todos os filósofos que se propôs a comentar e da tradição filosófica como um todo. Nesse sentido, a afirmação do caráter metafísico da vontade de poder, antes de constituir-se como uma mera leitura visivelmente deturpada do pensamento de Nietzsche, configura-se como um dos pontos fundamentais da passagem do primeiro para o segundo Heidegger e da compreensão do filosofo de sua própria época como “era da técnica” e da subjetividade incondicionada do super-homem em que seu domínio espalha-se pela terra em meio à fuga dos deuses e o predomínio da tékhné. O motivo do acabamento da metafísica através do pensamento de Nietzsche permitirá a Heidegger abrir seu filosofar para o horizonte da superação da metafísica e do niilismo, conduzindo-o através de suas conferências á “passagem para o poético” e ao abandono da ontologia fundamental no fim de sua vida. O que nos interessa, entretanto, neste trabalho são as condições de possibilidade da leitura heideggeriana de Nietzsche e sua justificação perante as obras do próprio filósofo, o que devemos encontrar nos postulados de sua hermenêutica e nas suas próprias afirmações sobre o caráter de sua interpretação.
           
           
           
           
           
           


[1] O termo Wille zur Marcht é traduzido normalmente como Vontade de Poder ou Vontade de Potência. Traduções mais antigas ainda podem trazer a forma Vontade de Domínio. No presente trabalho utilizamos a forma Vontade de Poder por se adequar melhor ao trabalho a ser realizado.
[2] Heidegger caracteriza a metafísica como história do esquecimento do Ser, uma vez que no seu estatuto o ser é sempre pensado em direção ao ente.

3 comentários:

Luiz Fernando Oliveira disse...

Exelente.
Qualquer um que através da filosofia de Nietzsche viu a forma que ele partiu a história da humanidade em duas, não conseguirá parar de lê-lo. E como o próprio diz, "O raio da verdade atingiu precisamente o que era mais alto: quem compreende o que foi destruído que observe se ainda lhe resta algo em mãos".

Parabéns pelo blog

Getulio Malveira disse...

Obrigado pela visita e pelo comentário, Luiz. Seja sempre bem-vindo e livre para deixar aqui suas considerações.

Unknown disse...

Confuso...muita sobreposição desnecessária de adjetivos.