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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mises: Revista interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia

"Albo lapillo notare diem" - foi com este velho ditado romano que o professor Ubiratan Iorio, diretor acadêmico do Instituto Mises Brasil, anunciou o lançamento da revista acadêmica do instituto. Há duas ou três coisas notáveis nesse fato: trata-se de uma revista acadêmica ligada à Escola Austríaca de Economia; de uma publicação que convida os adversários dessa escola ao debate científico; e, enfim, de uma revista interdisciplinar. Se a primeira das razões da importância que tributo ao fato interessa mais aos que já conhecem a tradição econômica que remonta a Carl Menger, embora seja grande a esperança de que jovens e velhos acadêmicos venham conhece-la através da Mises, são as duas outras razões que maior entusiasmo despertam, sobretudo a quem já foi tomado por um pouco de desencanto sobre os rumos da vida universitária brasileira.
 
Não pode haver ciência onde o debate racional está como que encerrado, onde doutrinas, por vezes obscuras, de pouca compreensão mas fácil reprodução, são admitidas como verdades assentadas sobre misteriosas evocações de autoridade. Retomando uma longa tradição crítica, nem faz um século ainda, Sir Karl Popper lembrou da necessidade, em sentido lógico mesmo, de manter-se o universo das teorias científicas aberto a críticas mútuas.
 
Por fim a interdisciplinaridade da qual hoje muito se fala e pouco se pratica. É verdade que a economia é uma ciência autônoma (não se há de contestar isso), mas é verdade também que muitos desvios teóricos, metodológicos e epistemológicos poderiam, nela, terem sido evitados se a antiga tradição humanística do século XIX não houvesse se perdido em meio aos devaneios alfanuméricos. Caminhos por evidente equivocados poderiam ter sido evitados, fantasmas de equívocos superados (valor-trabalho, monopólios, bens públicos) que povoam a teratologia economia poderiam já ter caído em esquecimento; outros, bons caminhos, poderiam ter se encurtado se a ciência da economia não se tivesse deixado seduzir por imagens de perfeccionismo científico, malgrado apenas imaginado. A crítica do filósofo é sempre suspeita, mas raramente injusta por completo. E já que não se critica a ciência mesma, mas o estado atual de uma ciência, é razoável ter a esperança de que a revista Mises contribuirá para a refundação da ciência econômica entre os trópicos, onde a razão anda a faltar-nos.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Hope - A análise de classe marxista vs análise de classe austríaca

No seguinte artigo, tenho três propostas. Primeiro, irei apresentar algumas teses que constituem o núcleo básico da teoria marxista da história. Afirmo que todas elas, em sua essência, estão inteiramente corretas. Em seguida, irei demonstrar como essas corretas teses marxistas foram derivadas de uma base completamente errônea. Por fim, quero demonstrar como a teoria austríaca, na tradição de Mises e Rothbard, pode fornecer uma explicação correta, embora categoricamente diferente, da validade destas teses marxistas.

Deixe-me começar com o núcleo básico do sistema de crenças marxista:[1]

(1) "A história da humanidade é a história da lutas de classe."[2] É a história das lutas entre uma classe dominante relativamente pequena e uma classe de explorados bastante numerosa. A principal forma de exploração é econômica: a classe dominante expropria parte da produção gerada pelos explorados — ou, como dizem os marxistas, a classe dominante "se apropria da mais-valia social e a utiliza para seus próprios propósitos de consumo."

(2) A classe dominante é unida pelo seu interesse comum de manter sua posição exploratória e maximizar sua mais-valia apropriada espoliativamente. Ela nunca deliberadamente abre mão do poder ou da renda advinda da exploração. Logo, qualquer perda de poder ou de renda da classe exploradora só será alcançada por meio de conflitos, cujos resultados efetivos vão depender, em última instância, da consciência de classe dos explorados — isto é, se os explorados estão cientes das suas próprias condições, o quão cientes estão disso e, principalmente, se estão conscientemente unidos aos outros membros da sua classe em oposição conjunta à exploração.

(3) O domínio de classe se manifesta essencialmente através de arranjos específicos que estão relacionados à forma como os direitos de propriedade são estipulados — ou, na terminologia marxista, na forma de "relações de produção" específicas. Para proteger esse arranjo ou essa relação de produção, a classe dominante forma o estado e assume seu comando, transformando-o em um aparato de compulsão e coerção. O estado impõe uma determinada estrutura de classes e estimula a sua reprodução através da administração de um sistema de "justiça de classe", e ajuda na criação e no sustento de uma superestrutura ideológica voltada para dar legitimidade à existência do domínio de classe.

(4) Internamente, o processo de competição dentro da classe dominante gera uma tendência de crescente concentração e centralização. Um sistema multipolar de exploração vai sendo gradualmente substituído por um sistema oligárquico ou monopolista. Um número cada vez menor de centros de exploração continua em operação — e aqueles que continuam estão cada vez mais integrados a uma ordem hierárquica. Externamente (isto é, no que diz respeito ao sistema internacional), esse processo de centralização levará a guerras imperialistas entre estados e à expansão territorial do domínio explorador. Quanto mais avançado estiver o processo de centralização, mais intensas serão as guerras.

(5) Finalmente, com a centralização e a expansão do domínio explorador gradualmente se aproximando do seu limite supremo de dominação global, o domínio de classe irá se tornar crescentemente incompatível com uma maior evolução e melhoria das "forças produtivas". Estagnações econômicas e crises se tornam cada vez mais rotineiras, criando assim as "condições objetivas" para o surgimento de uma revolucionária consciência de classe dos explorados. A situação se torna propícia para a criação de uma sociedade sem classes, para o "desaparecimento do estado", com o governo do homem sobre o homem sendo substituído pela simples administração das coisas[3]. Como resultado, haverá uma prosperidade econômica sem precedentes.

***



domingo, 21 de abril de 2013

II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal: Palestras do prof. Ubiratan Iorio e de Leandro Roque

Prof. Ubiratan Iorio
Na manhã de ontem tivemos a honra de receber aqui em Brasília o professor Ubiratan Iorio, diretor
acadêmico do IMB. Sua palestra sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE) foi uma oportunidade de iniciação para aqueles que estão conhecendo agora a Escola Austríaca e de aprofundamento para os que já conhecem. Com bom humor e clareza, o prof. Iorio expôs os principais elementos da TACE, as diferenças dela para teorias alternativas (keynesianas e monetaristas) e as razões que a tornam a melhor explicação para os ciclos econômicos.

Após um breve coffee break, Leandro Roque, editor e tradutor do IMB, apresentou uma análise dos dados da economia brasileira através da TACE. Com o mesmo rigor que caracteriza seus artigos publicados no Instituto, Roque nos ofereceu um panorama da situação atual que nos encontramos, dos efeitos da atuação do Banco Central na oferta monetária, mas frisando, sobretudo, a capacidade dos bancos (públicos ou privados) criarem moeda através dos sistema conhecido como "reservas fracionárias". Confesso que pouco entendo dessas coisas (SELIC, mercado interbancário, M2 etc) e justamente por isso a palestra do Leandro me foi extremamente proveitosa. 

Hélio Beltrão
Encerradas as atividades da manhã, ainda tivemos uma última oportunidade de conversar com os membros do IMB na Livraria Cultura numa mesa redonda que contou com a presença adicional de Helio Beltrão, presidente do Instituto. 

Estou certo que todos os que participaram de um ou mais eventos deste II Encontro ficaram hoje se sentem revigorados e prontos para levar adiante o pensamento austríaco. 

Resta agradecer ao Daniel Marchi, coordenador do Grupo de Estudos da Escola Austríaca do Distrito Federal por seu empenho em organizar o evento e aos demais membros que gentilmente me receberam e com os quais pude ter, neste fim de semana, longas e boas conversas sobre a EA. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

II Encontro da Escola Austríaca de Brasília: Palestra de Bruno Garschagen

Bem, acabo de voltar do primeiro evento do II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal:
palestra de Bruno Garschagen.

O que posso dizer é que, estando a dez anos envolvido em eventos acadêmicos, poucas vezes vi um evento no qual a discussão racional,  a clareza argumentativa e a retidão de pensamento estivessem tão presentes quanto neste. 

Com invejável limpidez, Bruno nos ofereceu um diagnóstico da situação atual do ensino no Brasil, de sua vida intelectual e as razões para a situação atual. 

Fosse para sintetizar em uma máxima a palestra esta seria: é preciso, para escolher uma visão de mundo , ter contato com uma multiplicidade de visões. Infelizmente, o que a academia hoje oferece é a visão hegemônica das esquerdas: o sonho de Gramsci tornado realidade.

Resta esperança? Mas é claro! Se numa sexta à noite foi possível quase lotar o auditório do IESB de defensores da liberdade, sempre há de haver esperança.

Daqui a pouco, às 08: 30 o encontro prossegue com a conferência do Prof. Ubiratan Iorio no IESB e, logo a seguir, uma conversa com Leandro Roque, editor e tradutor do IMB.

Estarei lá e relato desse grande evento para vocês.

II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal

Começa hoje o II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal. Não deixa de ser curioso que essa Brasília, tão dominada pelo estatismo e pelo funcionalismo público, seja uma dos primeiros lugares a formar um grupo sólido de pensadores em torno da EA. Ou talvez por isso mesmo: de tal ordem é a presença do poder público no Distrito Federal, de tal modo sua presença é constante, que aqui, mais que em outros lugares, a visão austríaca prospera a cada dia. E, prospera, vejam, justamente entre os servidores do estado. Incoerência? De forma alguma. Quem estaria mais apto a perceber os males do gigantismo estatal senão aqueles que estão dentro da máquina? Pois o que nos causa aversão não é a ineficiência do Estado para o bem (deixamos isso aos sociais-democratas), mas a grande eficiência estatal para o mal.

Por isso este II Encontro é uma conquista. Uma conquista principalmente daqueles que iniciaram este grupo.

Na programação de hoje, teremos o privilégio de receber Bruno Garschagen (Podcaster do IMB, colunista dos sites OrdemLivre.org e O Insurgente). 

A palestra será aberta ao público e ocorrerá no IESB, L2 Norte e começará às 19:00.

Estão todos convidados.

Estarei lá e amanhã relato como foi a palestra!


terça-feira, 16 de abril de 2013

David Gordon - Mises contra Marx

Se instados a citar o principal crítico do marxismo, a maioria dos economistas simpáticos ao livre mercado iria mencionar Eugen von Böhm-Bawerk, que em seu tratado Capital and Interest (Capital e Juro) e em seu folheto Karl Marx and the Close of His System (Karl Marx e o Fim do Seu Sistema) demoliu por completo a teoria do valor-trabalho, o sustentáculo da economia marxista.

Mas a teoria do valor-trabalho é apenas uma parte do marxismo. E quanto ao resto do sistema? É aqui que se faz necessário analisar a obra do maior e melhor aluno de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, cuja análise devastadora do marxismo é de inigualável excelência. Sua contribuição à crítica do marxismo é encontrada principalmente em dois de seus livros: Socialismo e Teoria e História.

[...]

Mises, mais vigorosamente do que qualquer outro crítico de Marx, transpôs e descortinou a essência dessa visão falaciosa. Se todo o pensamento sobre questões sociais e econômicas se baseia na questão social, o que dizer sobre o próprio sistema marxista? Se, como Marx orgulhosamente proclamava, sua intenção era explicar para a classe operária sua condição de espoliada, por que então qualquer uma de suas visões deveria ser aceita como verdadeira? Mises corretamente apontou que a visão de Marx era autorefutável: se todo pensamento social é ideológico, então a proposição marxista é em si ideológica, o que faz com que seus fundamentos já nasçam naturalmente solapados. Em sua obra Teorias Sobre a Mais-Valia, Marx não consegue conter seu escárnio em relação à "apologética" de vários economistas burgueses. Ele não percebeu que, ao escarnecer constantemente a tendenciosidade de seus economistas contemporâneos, ele estava cavando a sepultura de seu enorme trabalho de propaganda em favor do proletariado.

[...]


quarta-feira, 3 de abril de 2013

II Encontro da Escola Austríaca de Economia do Distrito Federal

Tenho a felicidade de divulgar este segundo encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal. O grupo de estudos que a organiza é formado por alguns dos melhores jovens livres pensadores do planalto central e o encontro contará com a presença de alguns dos gigantes atuais do pensamento austríaco no Brasil. Segue a programação:

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O Grupo de Estudos da Escola Austríaca de Brasília e o Instituto Mises Brasil apresentam o II Encontro de Escola Austríaca de Brasília.

Contribuindo com o contínuo esforço de divulgar as ideias liberais e os conhecimentos da Escola Austríaca de Economia, o II Encontro contará com a presença de grandes nomes da tradição liberal-austríaca no Brasil: Helio Beltrão, Bruno Gaschagen, Ubiratan Iorio e Leandro Roque.

Programação:


EVENTO 1

19 de abril | sexta-feira, 19h30

Local: IESB Asa Norte, L2 Norte

Palestra com Bruno Garschagen (Podcaster do IMB, colunista dos sites OrdemLivre.org e O Insurgente).

*Evento aberto ao público


EVENTO 2

20 de abril | sábado

Local: IESB Asa Norte, L2 Norte

8h30 - 9h20: Credenciamento e café de recepção.

9h20 - 10h30: Prof. Ubiratan Iorio (UERJ, IMB)

A Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos.

10h30 - 10h50: Coffee Break

10h50 - 12h00: Leandro Roque (Editor do IMB)

Análise da economia brasileira à luz da EA: dados e insights teóricos.

*Vagas Limitadas! Valor: R$80,00



EVENTO 3

20 de abril | sábado

Local: Teatro Eva Herz, Livraria Cultura Shopping Iguatemi

14h30 às 16h30: Mesa-debate com Helio Beltrão, Bruno Garschagen, Ubiratan Iorio e Leandro Roque

TEMA: A Crise Financeira Internacional em Perspectiva: Exclamações e Interrogações 5 Anos Depois.

Quatro analistas ligados à Escola Austríaca de Economia e ao Instituto Mises Brasil falarão – cerca de 10 min. cada um – sobre os desdobramentos da crise financeira internacional deflagrada em 2008, especialmente sobre as medidas tomadas pelos governos e bancos centrais. No radar, também, as expectativas de curto e médio prazo para o Brasil e as principais economias mundiais. Em seguida, rodada livre de debate com os palestrantes.

*Evento aberto ao público

Informações: danielmarchi@gmail.com


Realização

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Apoio

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sexta-feira, 22 de março de 2013

Shostak - O que há de errado com a econometria?


Nas ciências naturais, um experimento de laboratório pode isolar vários elementos e seus movimentos. Não há algo equivalente na disciplina de economia. O emprego da econometria e da modelagem econométrica é uma tentativa de reproduzir um laboratório onde experimentos controlados podem ser conduzidos.

A ideia de ter tal laboratório tem muito apelo para economistas e políticos. Uma vez que o modelo é construído e endossado como uma boa réplica da economia, políticos podem avaliar os resultados de várias políticas. Isso, eles argumentam, aumenta a eficácia de políticas governamentais e, portanto, leva a uma economia melhor e mais próspera. Também se sugere que o modelo pode servir como um árbitro para avaliar a validade de várias idéias econômicas. O outro propósito do modelo é o de prover uma indicação a respeito do futuro.

[...]

Apesar da aura de importância e misteriosa sabedoria que a modelagem econométrica projeta, ela é, não obstante, um recipiente oco. O procedimento de modelagem econométrica emprega uma metodologia insustentável: ele tenta capturar o comportamento humano fazendo uso de métodos matemáticos e estatísticos.

[...]



segunda-feira, 18 de março de 2013

Hülsmann - Explicando o verdadeiro significado do apriorismo

L.v.Mises
O ponto mais polêmico e controverso de toda a teoria econômica e filosófica desenvolvida por Ludwig von Mises é, sem dúvida, a sua afirmação de que existe uma teoria apriorística para a ação humana, isto é, que a ação humana pode ser explicada por um escopo de proposições desenvolvidas a priori, proposições que fornecem uma compreensão verdadeira sobre a realidade, e cuja veracidade pode ser confirmada independente de experimentos.

[...]


Quando Mises alegou que a ciência econômica era uma ciência apriorística, sua intenção não foi afirmar que não havia absolutamente nenhuma evidência empírica para as leis expressadas por esta ciência.  Mises de modo algum acreditava que a ciência econômica se baseava nas hipóteses fictícias criadas por uma comunidade de intelectuais acadêmicos e nem que o "apriorismo" significa a lealdade destes acadêmicos à sua fé comum.  Tampouco quis Mises dizer que a análise econômica dependia de algum arranjo arbitrário de hipóteses que não estava sujeito à verificação ou à falseabilidade, de modo que a ciência econômica seria "apriorística" no sentido de um mero trocadilho tautológico.

Immanuel Kant
Para Mises, a ciência econômica definitivamente é sobre fatos averiguáveis.  A questão, no entanto, é que tais fatos não podem ser conhecidos por meio da visão, da audição, do olfato ou do toque.  E proposições sobre estes fatos não podem, portanto, ser verificadas ou refutadas pela evidência dos sentidos.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Fabio Barbieri: o positivismo e as ciências sociais

Abaixo um excelente artigo do prof. Fabio Barbieri sobre a epistemologia das ciências sociais, tendo como base as posições antagônicas dos irmãos von Mises.

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Richard von Mises

Poucos lugares presenciaram tantas contribuições à ciência, filosofia e artes como Viena no final do século XIX e início do século XX. Ao contrário da maioria dos centros culturais, a relativamente pequena elite responsável por esse florescimento não era formada por comunidades dispersas de especialistas, mas por intelectuais que se interessavam pelas novidades em todos os fronts culturais — e as debatiam entusiasticamente nos famosos cafés da capital do Império Austro-Húngaro

Esse fenômeno permitiu o desenvolvimento de um passatempo intelectual moderno: traçar as relações pessoais entre grandes figuras do período. Considere uma pequena amostra dessa atividade: Popper se tornou amigo de Hayek, que era primo de Wittgestein. Mises era colega de escola de Hans Kelsen. Freud atendeu Gustav Mahler. A esposa deste, Alma Mahler, depois de flertar na juventude com Gustav Klint, após a morte do compositor foi sucessivamente esposa do famoso arquiteto Walter Gropius e do escritor Franz Werfel, além do romance que desenvolveu com o pintor Oskar Kokoschka.

Ludwig von Mises
A riqueza da cultura do império austro-húngaro poderia ainda dar origem a outro passatempo: explorar as diferenças de opinião, muitas vezes radicais, entre dois irmãos famosos. Poderíamos analisar as diferenças entre as ideias socialistas do jurista Anton Menger e as ideias liberais de seu irmão, o economista Carl. Na esfera política, seria interessante ainda contrapor o liberalismo de Michael Polanyi com o socialismo de seu irmão Karl. Neste artigo, trataremos das irreconciliáveis opiniões a respeito da metodologia das ciências sociais esposadas pelos irmãos Ludwig e Richard von Mises.







Texto completo em: Instituto Ludwig von Mises Brasil.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

L. v. Mises - A singularidade da Economia

O que confere à economia sua posição única e peculiar, tanto na órbita do conhecimento puro quanto na da aplicação prática do saber, é o fato de que os seus teoremas não são passíveis de comprovação ou de refutação com base em experiências.  Certamente, uma medida proposta por um raciocínio econômico correto produz os efeitos desejados, e uma medida proposta por um raciocínio econômico equivocado não atinge os objetivos pretendidos.  Porém, ainda assim, esses resultados são sempre uma experiência histórica, ou seja, experiência de fenômenos complexos.  Não servem para provar ou refutar qualquer teorema econômico.

A adoção de medidas econômicas erradas resulta em consequências não desejadas.  Mas esses efeitos não possuem jamais aquele poder de convencimento que nos é propiciado pelos "fatos experimentais" no campo das ciências naturais.  Só a razão, sem qualquer ajuda da comprovação experimental, pode demonstrar a procedência ou a improcedência de um teorema econômico.

A consequência nefasta deste estado de coisas é impedir que as mentes menos preparadas possam perceber a realidade dos fatos com que lida a economia.  Para o homem comum, "real" é tudo aquilo que ele não pode alterar e a cuja existência tem que ajustar suas ações, se deseja atingir seus objetivos.  A constatação da realidade é uma experiência dura.  Ensina os limites impostos à satisfação dos desejos.  É a contragosto que o homem reconhece que existem coisas — todas aquelas que decorrem de relações causais entre eventos — que não podem ser alterados com base em crenças que decorrem de seus desejos e não de fatos.  Não obstante, a experiência sensorial fala uma linguagem facilmente compreensível.  Não se pode argumentar contra uma experiência feita corretamente.  A realidade de fatos estabelecidos experimentalmente não pode ser contestada.

Mas, no campo do conhecimento praxeológico, nem o sucesso e nem o fracasso falam uma linguagem clara que todos compreendam.  A experiência decorrente exclusivamente de fenômenos complexos não consegue evitar interpretações em que os desejos substituem a realidade.  A propensão, existente nos homens menos preparados, de atribuir uma onipotência aos seus pensamentos, por mais confusos e contraditórios que sejam, nunca é desmentida pela experiência de forma clara e sem ambiguidade.  O economista jamais tem condições de refutar os impostores da mesma maneira que o médico pode refutar os curandeiros e os charlatães.  A história só ensina àqueles que sabem como interpretá-la com base em teorias corretas.

Texto completo em: Instituto Ludwig von Mises Brasil

sábado, 28 de abril de 2012

Robert P. Murphy, - Psicologia versus Praxeologia

Talvez a característica mais peculiar da economia de Ludwig von Mises seja sua insistência em fazer uma abordagem apriorística - ou seja, dedutiva.  Para Mises, as "leis" econômicas devem ser logicamente deduzidas de axiomas anteriores, de modo que - assumindo que as suposições iniciais sejam verdadeiras - as conclusões alcançadas sejam tão válidas quanto qualquer resultado na geometria euclidiana.

Isso é totalmente contrário ao método dos positivistas, um campo que inclui a maioria dos economistas atuais.  Na opinião deles, a economia só pode ser científica se ela adotar os procedimentos utilizados pelas ciências naturais.  Em termos gerais, os positivistas creem que os economistas devem formular hipóteses cujas deduções sejam testáveis, e então sair coletando dados que meçam a acurácia de suas previsões.  Assim, aquelas tendências que obtêm maior êxito nesse sentido passam a ser consideradas "leis" melhores do que aquelas hipóteses que não corresponderam muito bem aos dados.

Contra as impressionantes ferramentas matemáticas utilizadas pela economia convencional, bem como seu vasto orçamento gasto com coleta de dados, os misesianos humildemente insistem que a economia deve partir da premissa de que os humanos agem.  Esse axioma da ação é o núcleo da "praxeologia" (praxis = ação; logia = ciência), o termo utilizado por Mises para a ciência da ação humana.  Os misesianos argumentam que todas as verdadeiras leis econômicas podem ser derivadas desse simples axioma (algumas vezes com suposições adicionais sobre o mundo, como o fato de que a mão-de-obra impõe custos).

                                                                              [...]
Tradução de Leandro Roque.
Leia o texto completo em Instituto Ludwig von Mises Brasil

quarta-feira, 21 de março de 2012

Rodrigo Constantino - A falácia do polilogismo

Claro que alguns homens podem pensar de forma mais profunda e refinada que outros, assim como algumas pessoas não conseguem compreender um processo de inferência em longas cadeias de pensamento dedutivo. Mas isso não nega a estrutura lógica uniforme. Mises cita como exemplo alguém que pode contar apenas até três, lembrando que mesmo assim sua contagem, até seu limite, não difere daquela feita por Gauss ou Laplace. É justamente porque todos consideram este fato inquestionável que os homens entram em discussões, trocam idéias ou escrevem livros. Seria simplesmente impossível uma cooperação intelectual entre os indivíduos sem isso. Os homens tentam provar ou refutar argumentos porque compreendem que as pessoas utilizam a mesma estrutura lógica. Qualquer povo existente reconhece a diferença entre afirmação e negação, pode entender que A não pode ser, ao mesmo tempo, o contrário de A.

No entanto, apesar desse fato ser bastante evidente, ele foi contestado por Marx e pelos marxistas, entre eles o "filósofo proletário" Dietzgen. Para eles, o pensamento é determinado pela classe social da pessoa, e o pensamento não produz verdades, mas ideologias. Para os marxistas, os pensamentos não passam de um disfarce para os interesses egoístas da classe social a qual esse pensador pertence. Nesse contexto, seria inútil discutir qualquer coisa com pessoas de outra classe social. O que se segue disso é que as "ideologias não precisam ser refutadas por meio do raciocínio discursivo; elas devem ser desmascaradas através da denúncia da posição da classe, a origem social de seus autores". Se uma teoria científica é revelada por um burguês, o marxista não precisa atacar seus méritos. Basta ele denunciar a origem burguesa do cientista
.

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Leia o artigo na íntegra em: Instituto Ludwig von Mises Brasil

sábado, 28 de janeiro de 2012

Subsídios à leitura d’A ação Humana de L.v. Mises ( I ): A noção de "regularidade"

Há algum tempo publiquei o primeiro capítulo da obra A Ação Humana de L.v. Mises, como parte de meus esforços no sentido de compreender melhor a Escola Austríaca de Economia. Recentemente, o Sr. Barlavento do blog Meus FAQs, respondendo a tal postagem, indicou-me um texto, de sua autoria, no qual contesta, de forma um tanto quanto temerária, penso, os princípios da praxeologia expostos pelo filósofo austríaco. Isso posto, é preciso responder ao nosso amigo crítico no intuito de esclarecer o significado do pensamento de von Mises, a parte concordâncias ou discordância de ordem político-ideológica, as quais tomo a liberdade de por de lado, detendo-me tão só na correta compreensão do texto.

Assim, publicarei respostas às suas interrogações como um esforço de subsidiar a leitura de tal tratado, detendo-me somente na questão da significação das teses, deixando para o leitor a avaliação de sua correção ou incorreção, segundo o bom senso de que todos são igualmente providos, como dizia Descartes. Embora me dirija especialmente ao nosso amigo crítico, tais textos representam um esforço pessoal de aprendizado, o qual, espero, possa ser compartilhado por outros que por aqui passarem.

Dito isso, consideremos a primeira questão. Nosso amigo Barlavento, citando a Introdução do tratado, elabora interessantes interrogações e objeções contra a ideia básica ali exposta, i.e., a existência de uma ciência formal da ação humana, cujas proposições devem ser estabelecidas dedutivamente. Retomemos somente os trechos mais importantes citados por nosso crítico:

“A descoberta da inevitável interdependência dos fenômenos do mercado destronou essa opinião. Desnorteadas, as pessoas tiveram de encarar uma nova visão da sociedade.” [Mises, 1990, p. 6]

“Na ocorrência de fenômenos sociais prevalecem regularidades as quais o homem tem de ajustar suas ações, se deseja ser bem-sucedido.” [Id., Ibid., p. 6-7.]

“(...) Toda decisão humana representa uma escolha. Ao fazer sua escolha, o homem escolhe não apenas entre diversos bens materiais e serviços. Todos os valores humanos são oferecidos para opção” [Id., Ibid., p. 7]

Vejamos o que anota nosso crítico:

“Porquê o homem tem que ajustar suas ações às regularidades? Que regularides são estas? e, porquê a interdependência alegada seria inevitável? E ainda, o que seria ser "bem sucedido" dentro do "juízo de valores" do autor?  Sendo necessária uma "nova visão da sociedade", é um tanto contraditório alegar sobre "regularidades as quais o homem tem de ajustar suas ações". Ora, se existem "regularidades" já identificadas, é certo que alguma "visão" às enxergou, portanto, é falho tentar ajustar comportamentos dentro de regularidades a partir desta visão viciada e clamar por uma "nova visão da sociedade". Qual seria a origem de tais "regularidades"? Se são regularidades, possuem padrão, consequentemente possuem características, as quais podem ser alteradas, aperfeiçoadas, etc....”

Analisemos suas questões:

1)    Por que o homem tem de ajustar suas ações às regularidades?
2)    Que regularidades são essas?
3)    O que significa ser “bem-sucedido” nesse contexto?
4)    Alegação de contradição: regularidades X “nova visão da sociedade”;
5)    Qual a origem dessas regularidades?


As duas primeiras questões são básicas: ao compreender o que von Mises chama de “regularidades” temos a chave para a compreensão do propósito e natureza do tratado. Aqui é preciso resgatar uma antiga mas crucial distinção filosófica: todos sabemos o que seja uma ciência empírica e todos compreendemos que a Matemática e a Lógica não são ciências empíricas. O que são então? A resposta é clara: são conjuntos de tautologias (juízos analíticos), como alegava Wittgenstein, ou ciências formais. A Lógica tem a característica adicional de ser uma “ciência normativa”, i.e., uma ciência que não se ocupa em descrever fatos, mas em ordenar as regras de direito do correto raciocínio. Há ciências normativas que não sejam também ciências formais? É questão difícil. Pode-se alegar que a epistemologia o seja e os antigos, junto a Lógica, acrescentavam a Ética e a Estética como ciências normativas. Mas não necessitamos entrar no mérito dessa questão muito complexa. De fato há uma ciência, a Lógica, que é puramente formal (destituída de todo conteúdo empírico passível de verificação experimental) e ao mesmo tempo normativa.

Nesse ponto, é fundamental compreender a noção de “norma”, “regra” e, decorrentemente, “regularidade”. As leis lógicas (como a “lei distributiva”, o princípio de não-contradição ou o “tertium non datur”) são regularidades da estrutura cognitiva humana (se outra estrutura é possível não o podemos saber) ou da linguagem humana, conforme nos expressemos na terminologia da epistemologia mentalista ou linguística. Tais regras, são leis as quais o pensamento “tem de” necessariamente se ajustar: “Não podemos pensar nada de ilógico, pois isso significaria pensar ilogicamente” – diz Wittgenstein.

Desde o século XIX, contudo, há os que contestam essa evidência, reclamando que indivíduos ou grupamentos humanos poderiam não compartilhar da mesma estrutura lógica. Essa crença é chamada “polilogismo” – sendo, obviamente destituída de sentido, reduz-se a alegações vazias. É inútil argumentar longamente contra tal tese: se o leitor supõe que possa haver estruturas cognitivas distintas, a mera possiblidade de que seja esse o caso, impossibilita, de iuris, a vigência da linguagem comunicativa. Ademais, alguém que não acredite na correção absoluta dos princípios lógicos não pode ser persuadido de qualquer tese, visto que não se pode convencer ou ser convencido de qualquer tese sem recorrer aos mesmos, ainda que como critério negativo de verdade.

Nesse ponto, e por analogia à Lógica formal, espero que o leitor já tenha compreendido o significado de “ter de seguir uma regra”. Passemos à noção derivada de regularidade. Nesse ponto, von Mises usa o termo exatamente do mesmo modo que Kant o usou: a Natureza apresenta regularidades, isso é evidente, a questão é justamente a natureza desses regularidades. Quanto à praxeologia, portanto, devemos fazer duas interrogações distintas: 1) há regularidades na ação humana? 2) qual o fundamento de tais regularidades? A primeira questão, já tendo sido há muito resolvida no âmbito das ciências naturais permanece um problema no confuso universo das chamadas ciências sociais ou humanas; a segunda só pode ser resolvida depois de se resolver a primeira.

Qual a posição de von Mises? Muito clara: assim como vigem regularidades na Natureza, o universo da ação e interação humana apresenta regularidades apreensíveis, que apenas precisariam ser descobertas. Tal descoberta é dedutiva, na medida em que espera-se que todas as regularidades da ação humana possam ser derivadas, por análise, da própria categoria de “ação humana”, tal como, por análise, as propriedades do numero natural são dedutíveis da noção de numero natural ou as constantes geométricas são dedutíveis de poucos axiomas sobre as propriedades basilares do espaço. Mises pretende que a praxeologia seja a ciência formal e normativa da ação humana, uma ciência que sempre existiu desde que a primeira regularidade da ação humana foi verificada.

Quais são essas regularidades? Toda regularidade, no sentido da praxeologia, se expressa por uma tautologia (ou juízo analítico) decorrente das categorias envolvidas na ação humana, revelando o modo (forma) como se dá a ação humana, independente dos conteúdos empíricos que ela possa envolver. Assim, como exemplo, a definição de “bem” de Carl Menger [Princípios de Economia, capítulo I, §1]:

“As coisas capazes de serem colocadas em nexo causal com a satisfação de nossas necessidades humanas denominam-se ufãdades: denominam-se bens na medida em que reconhecemos esse nexo causal e temos a possibilidade e capacidade de utilizar as referidas coisas para satisfazer efetivamente às nossas necessidades”

envolve um raciocínio puramente analítico e formal. Um bem é algo capaz de prover nosso bem-estar satisfazendo alguma necessidade. Tal definição é dedutível do fato de que os homens têm de agir, da qual decorre que tem de escolher por essa ou aquela coisa; o que escolhem é, para o que escolhe, um bem, e um bem preferível a outros. Ora, não pertence ao escopo da praxeologia dizer que bem seria preferível ou porque as pessoas preferem isso ou aquilo. A praxeologia lida somente com a forma da ação humana: ao agir as pessoas manifestam uma preferência. Portanto, as regularidades com que lida a praxeologia são sempre formas da ação humana desprovidas de qualquer conteúdo empírico. O fato de que todos “tem de ajustar” suas ações a tais formas é tão intrigante quanto o fato de que temos de ajustar nosso pensamento aos princípios lógicos. É impossível não agir, não preferir, não avaliar, tal como é impossível pensar ilogicamente.

Isso responde às duas primeiras questões. A terceira questão diz respeito a expressão “ser bem-sucedido”. Mises diz que a ação para ser bem sucedida deve ajustar-se às regularidades praxeológicas. Isso implica introduzir a possibilidade do erro e da incerteza objetiva. Ora, embora os primeiros postulados praxeológicos implicam em formas gerais da ação humana, há teoremas decorrentes que implicam o sucesso ou o fracasso da ação. Isso pode parecer surpreendente à primeira vista, uma vez que se admitiu que as ações se ajustam necessariamente as leis praxeológicas. Mas tal como se pode errar um cálculo matemático ou argumentar com base em sofisma, de fato, ao agir, é possível fracassar em decorrência das próprias leis que regem a ação. Um exemplo: suponho que o ouro seja um bom investimento [assim manifesto uma preferência, faço um juízo de valor e uma escolha] e invisto todo meu dinheiro em ouro. De um momento para o outro, porém, grandes jazidas de ouro são descobertas e exploradas, fazendo preço do metal despencar. Resultado: o preço do ouro cai e fico mais pobre do que era antes do investimento, fracassando no intento de melhorar meu bem-estar. O futuro é incerto, uma incerteza objetiva, e as preferências subjetivas das pessoas são incognoscíveis. Logo, em qualquer empreendimento humano, em qualquer ação é possível o fracasso, que no fim se expressa pelo fato de que eu não tenha conseguido melhorar meu bem-estar, mas, o contrário.

Juízos de valor são sempre subjetivos. Isso significa que embora eu possa dizer com absoluta convicção que todos os seres humanos querem sair de uma situação menos favorável para uma mais favorável, eu não posso a priori saber o que cada pessoa avalia como uma situação mais favorável, ou o que, para ela, é um bem. Nisso está a diferença entre um conhecimento formal e um conhecimento material da ação humana: o conhecimento formal é dedutível, mas vazio; o conhecimento material é significativo mas só se pode adquiri-lo a posteriori.

A última questão diz respeito a origem das regularidades. Creio que o que se disse até o momento é suficiente para deixar claro como ela é destituída de sentido: as regularidades que caracterizam a estrutura formal da ação humana, são condições formais da ação para os seres racionais, tal como os princípios lógicos. Se por origem se entende uma gênese psicofísica a questão da origem é irrelevante. Caso se entenda uma derivação transcendental, isso seria um problema crítico ou fenomenológico, que, em todo caso, não afeta o fato de que tais leis permanecem válidas. Nesse último caso, é preciso primeiro admitir a validade universal e necessária (a apodicticidade) dessas leis, para então interrogar-se por suas condições – o que torna o problema tão relevante para o praxeólgo quanto para o matemático ou o lógico.

Passamos por sobre a quarta questão. Trata-se somente de um erro de leitura: Mises se refere ao fato de que desde há muito tempo as pessoas encaram os fenômenos sociais como passíveis de conhecimento objetivo, portanto regidos por regularidades cognoscíveis, ao invés de serem aleatórios, fatais ou determinados por uma entidade metafísica (Deus, Providência, etc). O que se deve reter disso: só se pode falar de ciências sociais e humanas, se se admite que os fenômenos humanos obedecem a certas regularidades cognoscíveis. Do contrário não há qualquer ciência humana ou social.

Entretanto, nosso crítico, repetindo um princípio básico do relativismo contemporâneo afirma:

“a verdadeira objetividade é impossível, e mesmo as mais rigorosas análises racionais fundamentam-se no conjunto dos valores aceitos no curso da análise.”

Ora, como toda proposição relativista, tal opinião não é apenas falsa, mas destituída de sentido: se não há objetividade, tal proposição não é objetiva e não se vê porque se deveria acreditar que não haja objetividade; logo, deve haver uma objetividade. É óbvio que há objetividade: as ciências não são conjuntos de crenças, mas reais conhecimentos sobre o mundo. Se queremos entrar no complexo universo da epistemologia é preciso já atentar para a mais simplória das distinções: o fato de que uma proposição possa ser falsa não significa que ela seja em algum grau “subjetiva”. Para Karl Popper, por exemplo, é justamente isso que a torna objetiva, significativa e, portanto científica. Quanto as proposições da matemática, da lógica e, aceitando-se a tese de von Mises, da praxeologia, elas não são objetivas nesse sentido: são tautologias e como tais não podem estar incorretas e não podem ser refutadas, já que não possuem qualquer conteúdo material.

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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Peter G. Klein - Menger, o Revolucionário

Carl Menger
Nunca viveram ao mesmo tempo", escreveu Ludwig von Mises, "mais que uma vintena de pessoas cuja contribuição à ciência econômica pudesse ser considerada essencial." Um desses homens foi Carl Menger (1840-1921), Professor de Economia Política da Universidade de Viena e fundador da Escola Austríaca de Economia.

A obra pioneira de Menger, Grundsätze der Volkswirtschaftslehre [Princípios de Economia Política], publicada em 1871, não apenas introduziu o conceito de análise marginal, como também apresentou uma abordagem radicalmente nova sobre a análise econômica, análise essa que ainda forma o núcleo da teoria austríaca do valor e dos preços.

Ao contrário de seus contemporâneos William Stanley Jevons e Leon Walras, que independentemente desenvolveram conceitos de utilidade marginal durante os anos 1870, Menger preferiu uma abordagem que fosse dedutiva, teleológica, e, em um sentido fundamental, humanística. Conquanto Menger compartilhasse com seus contemporâneos a preferência pelo raciocínio abstrato, ele estava primordialmente interessado em explicar como funcionavam as ações de pessoas reais no mundo real, e não em criar representações artificiais e estilizadas da realidade.

Para Menger, a economia é o estudo das escolhas propositais dos seres humanos, a relação entre meios e fins. Ele começa seu tratado dizendo que "Todas as coisas estão sujeitas à lei da causa e efeito. Não existe exceção para esse grande princípio." Jevons e Walras rejeitavam causa e efeito em favor de uma determinação simultânea - a idéia de que sistemas complexos podem ser modelados como sendo sistemas de equações simultâneas que acreditam que nenhuma variável pode "causar" uma outra variável. Essa se tornou a abordagem padrão da ciência econômica atual, e é aceita por quase todos os economistas, exceto os seguidores de Carl Menger.

Tradução de Leandro Roque. Texto completo em: Instituto Ludwig von Mises.

sábado, 15 de outubro de 2011

Gene Callahan - O que é uma ciência apriorística, e por que a economia é uma

"Não é incomum encontrar pessoas muito inteligentes que, mesmo tendo grandes simpatias pela economia política de Ludwig von Mises, se sentem confundidas pelos seus métodos ou até mesmo negligenciam os preceitos metodológicos que guiam sua teoria econômica. Mais tipicamente, essas objeções são particularmente dirigidas à asserção enfática e sempre repetida por Mises que postula que o núcleo da teoria econômica é composto de conceitos a priori - isto é, proposições cuja validade é atingida por contemplação ao invés de por pesquisa empírica. Essas pessoas normalmente consideram esse aspecto do pensamento de Mises como sendo contrário aos princípios científicos modernos, como se fosse um fóssil vivo, uma besta arcaica que deveria ter sido extinta junto com o racionalismo abstrato da era anterior à Revolução Científica.

Devido aos vários diálogos que já tive com tais críticos, creio que detectei um equívoco frequente sobre o que significa o fato de uma proposição ser, em si, uma verdade a priori para algum assunto. Esse erro não apenas causa confusão a respeito da metodologia econômica de Mises, mas também obscurece os verdadeiros fundamentos das ciências empíricas que, justificadamente, muitas dessas pessoas tanto admiram.

Pelo que entendo de Mises, ao caracterizar os princípios fundamentais da economia como verdades a priori e não como fatos incertos abertos a descobertas ou refutações empíricas, ele não estava dizendo que as leis econômicas nos foram reveladas por ação divina, como os dez mandamentos foram a Moisés. Ele também não estava alegando que os princípios econômicos são transferidos automaticamente aos nossos cérebros pela simples evolução humana, nem que podemos compreendê-los e articulá-los sem antes ter ganhado familiaridade com o comportamento da economia através da participação e da observação dela em nossas próprias vidas. Na verdade, é bem possível que alguém tenha tido uma boa dose de experiência real com a atividade econômica e, ainda assim, nunca ter imaginado quais os princípios básicos - se algum - ela exibe.

Ainda assim, Mises estava certo ao descrever estes princípios como apriorísticos, porque eles são logicamente anteriores a qualquer estudo empírico de fenômenos econômicos. Sem eles é impossível até mesmo reconhecer que há uma classe definida de eventos que podem ter explicações econômicas. Somente ao pré-supor que conceitos como intenção, propósito, meios, fins, satisfação, e insatisfação são características de um certo tipo de acontecimento no mundo é que podemos conceber um tema para a economia investigar. Esses conceitos são pré-requisitos lógicos para distinguir um assunto ligado a eventos econômicos de outros assuntos ligados a eventos não-econômicos, como o tempo, o percurso de um planeta pelo céu noturno, o crescimento das plantas, o quebrar das ondas no litoral, a digestão animal, vulcões, terremotos, entre outros.

Se não assumíssemos em princípio que as pessoas deliberadamente empreendem atividades previamente planejadas com a intenção de tornar sua situação - como elas subjetivamente a vêem - melhor do que em relação à situação em que outrora estariam, não haveria uma base para diferenciar as trocas que ocorrem na sociedade das trocas de moléculas que ocorrem entre dois líquidos separados por uma membrana permeável. E os aspectos que caracterizam os membros da classe de fenômenos selecionada como tema de uma ciência especial devem ter uma condição axiomática para os praticantes dessa ciência, pois se os praticantes rejeitarem esses aspectos então eles também estarão rejeitando os fundamentos para a existência dessa ciência.

[...]
"


Leia o texo na íntegra no: Instituto Ludwig von Mises Brasil.

sábado, 13 de agosto de 2011

A questão do apriorismo em L. V. Mises e I. Kant ( I )


Introdução

Não é raro que, no afã de resolver os problemas mais imediatos, os cientistas se descuidem dos fundamentos de sua ciência e acabem por defender doutrinas epistemológicas ou metafísicas incompatíveis com seu saber ou por si mesmas inconsistentes.  Já deveríamos ter aprendido que ignorar os problemas de fundamento não faz com que eles desapareçam, mas somente que se adote acriticamente um idéias pouco sólidas. De outro lado, o filósofo muitas vezes ignora o que é feito pelo cientista, o que o impossibilita de suprir a lacuna deixada por este. Mais frequentemente ainda os filósofos estão por demais ocupados com os problemas das ciências naturais para voltar seu tempo e atenção aos problemas suscitados pelas ciências humanas e sociais, em prejuízo destas e da própria filosofia.

A filosofia, contudo, não é prerrogativa dos eruditos que se auto-denominam “filósofos”, mas será o nome justo para toda reflexão rigorosa, radical e sistemática de um campo de objetos. É preciso, pois, nesse ponto reconhecer o mérito dos partidários da Escola Austríaca de Economia que, sem deixar de ser economistas no sentido mais pleno do termo, cultivam duas virtudes hoje muito raras: a atenção quanto aos problemas epistemológicos e a persistência quanto a busca da verdade, razão pela qual todo economista austríaco merece se também chamado “filósofo”.

Sirvam essas palavras como justificativa do que me move a abordar as questões epistemológicas suscitadas pela Escola Austríaca, mesmo reconhecendo minha insuficiente erudição na ciência econômica.

A questão do apriorismo

Ludwig von Mises
Comecemos, pois, do princípio. Importei a pouco tempo para este sítio a tradução do primeiro capítulo do tratado A Ação Humana de Ludwig von Mises porque, creio, nele está lançado um desafio intelectual dos mais intrigantes: a questão sobre a natureza do conhecimento econômico.

Pois bem. Mises acreditou ter descoberto um novo campo, ainda não explorado de conhecimentos apriorísticos. Considerava ele que algumas ou talvez todas (aqui pode haver dissenso entre seus leitores) proposições da Economia pertenciam a tal campo, mas que este domínio ontológico (da ação humana) necessitaria de uma nova e específica ciência, a Praxeologia.

A tese em si mesma não é de modo algum obscura ou complexa, mas isso não significa que seja simplória. De fato, embora certas consequências possam ser imediatamente inferidas dessa proposta, somente um exame detalhado da mesma seria capaz de nos abrir todo o horizonte promissor a ela inerente.

Ao certo, supomos saber o que significa um conhecimento apriorístico: na terminologia kantiana, é apriorístico o conhecimento que não tem origem na experiência empírica. Ora, aqui começa o dissenso, pois para alguns, a influência de Kant sobre Mises o teria levado a corroborar e defender tacitamente a problemática doutrina dos juízos sintéticos a priori ou, para os mais radicais como Rothbard, a levá-la uma passo a frente do próprio Kant; mas talvez outros, como eu próprio, não encontrem no tratado de Mises nenhum indício nesse sentido, preferindo recolocar a questão do apriorismo sobre bases menos incertas que a doutrina kantiana.

Não tentarei aqui avançar mais do que posso, nem me gabar de ter encontrado uma melhor interpretação para o apriorismo de Mises, mas somente colocar a questão e suas dificuldades. Dado que ainda estudo a questão, me contentarei em fazer algumas indicações iniciais, muito básicas, porém necessárias à elucidação do assunto.

Juízos X proposições

Em primeiro lugar, há de se distinguir juízos e proposições. Aqueles são entidades mentais, enquanto estes têm natureza lingüística, embora difiram de outras entidades linguísticas como a frase, a sentença e o enunciado, não havendo consenso entre os lógicos quanto a estes termos e seus significados.

Tradicionalmente, porém, diz-se que “a proposição é a expressão verbal de um juízo”, sendo este “o ato pelo qual o espírito afirma alguma coisa”[1]. Mas se a proposição é apenas a expressão do juízo, que diferença pode haver em tratarmos de proposições ou juízos? O problema básico é que, mesmo admitindo a existência de juízos e proposições e a relação acima descrita entre eles, deveremos reconhecer que as características das proposições, excetuando talvez as que se refiram a sua matéria, devem também ser encontradas nos juízos, segundo o velho adágio metafísico de que deve haver tanto no efeito quanto há na causa. A recíproca, porém, não é verdadeira e não há nenhuma necessidade de que as proposições exibam caracteres intrínsecos aos juízos. Em suma: juízos poderiam formalmente ser tratados como se fossem proposições, mas proposições não podem ser tratadas como se fossem juízos.

Proposições analíticas?

Para que o que se disse acima não pareça vão exercício de retórica, consideremos a questão entre juízos analíticos e sintéticos, muito importante para a interpretação do vínculo entre Mises e Kant. Segundo Kant, juízos analíticos são aqueles em que o predicado está contido implicitamente na idéia do sujeito, enquanto juízos sintéticos representam o caso contrário[2]. Jolivet, porém, reconhece três casos distintos de juízos analíticos: 1) quando o atributo é idêntico ao sujeito; 2) quando o atributo é essencial ao sujeito; 3) quando o atributo, não sendo essencial, é próprio do sujeito, i.e., decorre de sua essência. Quando aos juízos sintéticos, são, para o filósofo francês, aqueles em que o atributo é acidental ao sujeito[3].

Immanuel Kant
Não discutirei no momento qual conceituação é mais adequada. O fato é qualquer que seja a definição utilizar para tecer essa distinção, ela só cabe a juízos, nunca a proposições, pois de fato um juízo ser analítico decorre de que tenha sido produzido por análise, enquanto o ser sintético implica que nasceu por composição. Não há, pois, qualquer sentido em falar de proposições analíticas ou sintéticas, haja vista que uma proposição é sempre uma composição de termos distintos. Que sentido poderia haver em dizer que o predicado da proposição está contido em seu sujeito, ou que é essencial a ele, ou que dele decorre? Seria lícito chamar que proposição (predicação) em que os termos fossem idênticos (Ex: a casa é uma casa)? Suponho que dificilmente se admitiria que há aqui uma proposição. Assim, se, para existir, a proposição necessita de dois termos distintos, carece de sentido falar em proposições analíticas.

Parece, pois, que ao renunciar ao uso do conceito mentalista de “juízo”, perdemos com isso a possibilidade de nos referirmos às operações de análise e síntese e aos produtos delas decorrentes. Por que o faríamos, contudo? Muito embora os lógicos formais, ao menos desde Frege, não ousem mais tratar de juízos, a lógica transcendental (de Kant ou Husserl) não pode abdicar de tais entidades. Parece, pois, abrir-se um hiato entre a Lógica Formal e a Lógica Transcendental, de modo que é nesta última que se deveria buscar o fundamento da distinção entre conhecimentos apriorísticos e aposteriorísticos. Antes, contudo, de nos enveredarmos nesse difícil campo de investigação, é preciso perguntar: Mises defende uma qualquer doutrina sobre juízos ou trata apenas de proposições?

A priori X a posteriori

Abandonemos, então, a questão da síntese e da análise e nos concentremos  na distinção muito mais importante entre juízos apriorísticos e aposteriorísticos. Cuidemos, contudo, para que essa adjetivação do termo latino não nos leve a um erro grave: ser a priori ou a posteriori não são propriedades dos juízos, mas referem-se às condições de verdade ou falsidade dos mesmos (valor lógico). É mais correto, portanto, dizer que há juízos cuja verdade ou falsidade independem de qualquer verificação (juízos verdadeiros ou falsos a priori), enquanto o valor lógico de outros só pode ser assentido após um exame experimental (juízos verdadeiros ou falso a posteriori).

Assim, a princípio qualquer juízo que antecipe uma experiência empírica poderia se considerado apriorístico. Entretanto, em epistemologia só nos interessam os juízos apriorísticos strictu sensu, i.e., aqueles cuja verdade ou falsidade é estabelecida independente de toda e qualquer experiência e não desta ou daquela experiência em particular.

A observação mais importante a fazer, contudo, é que, uma vez que a classificação se refere às condições de verdade e não a qualidades intrínsecas, os atributos “ser (verdadeiro ou falso) a priori” e “ser (verdadeiro ou falso) a posteriori” podem ser ditos tanto de juízos quanto de proposições, indiferentemente, pois é certo que quanto a isso, uma proposição é tão passível de ser verdadeira ou falsa quanto o juízo que possivelmente expressa. Disso resulta que, quanto a questão do apriorismo, podemos falar somente de proposições, não criando dificuldades para a análise lógico-formal.

A princípio qualquer tipo de proposição pode ser aprioristicamente verdadeira ou falsa: tanto as universais quanto as particulares; tanto as afirmativas quanto as negativas. Por exemplo, toda proposição que afirma de uma parte do sujeito o que já foi afirmado do todo, é uma proposição particular aprioristicamente verdadeira, independente, independente de como tenha sido firmada a verdade da universal correspondente. Donde se vê que não têm razão os que afirmam que proposições (verdadeiras ou falsas) a priori sejam sempre universais e necessárias. Melhor, têm razão somente em parte, porque é evidente que tais proposições são necessariamente verdadeiras ou necessariamente falsas, a não se que admitamos nessa classe as proposições não absolutamente apriorísticas, mas apenas relativamente (a esta ou aquela experiência em particular) – isso, porém, não o faremos.

Quanto à origem, pode-se dizer que as proposições cuja verdade se estabelece independente de qualquer experiência, têm sua mais óbvia origem nas operações lógico-formais.

Em segundo lugar – e com muito maior razão – os princípios lógicos que presidem as operações de raciocínio e argumentação, devem ser tidos por válidos e verdadeiros a priori, uma vez que são requisitos de validade de tais operações e requisito da necessidade do nexo entre os termos de um argumento. Pode-se dizer que esse modo de evidenciar o caráter apriorístico dos princípios lógicos é uma petição (transcendental) de princípio, pois que aquele que desejasse negar valor a um princípio lógico (como o de não-contradição, por exemplo), deveria pode demonstrar a falsidade, ou mera contingência, do mesmo sem recorrer a ele – o que de todo é impraticável.

Assim, pode-se ensaiar uma investigação para saber se a petição transcendental de princípio, mediante a qual evidencia-se a necessidade dos princípios lógicos pode ser estendida a outras espécies  de proposições , donde se alargaria o campo dos conhecimentos apriorísticos. Não me parece ser outro o procedimento de Kant com relação à geometria, à aritmética e aos fundamentos da física teórica: a própria experiência empírica, afirma ele, seria impossível sem o recurso a tais conhecimentos, donde decorre que a validade dos mesmos não poderia ser firmada por ela. Analogamente, os austríacos argumentam que a experiência do universo da ação humana requer certas proposições fundamentais como condições de inteligibilidade, restando demonstrado que a verdade ou falsidade das mesmas não poderia fundar-se na experiência que condicionam.

Voltaremos a essa questão em outro momento. Por hora, basta que se reconheça o fato de que a admissão de conhecimentos apriorísticos não nos conduz necessariamente a defender qualquer doutrina sobre a natureza dos juízos, menos ainda a problemática doutrina dos “juízos sintéticos a priori” de Kant. De fato, para falar de conhecimentos válidos e verdadeiros a priori, nem mesmo precisamos falar de juízos. Conclui-se, portanto, que mesmo se Mises houvesse defendido a doutrina kantiana (o que me parece não ser o caso) tal homenagem à obra de Kant em nada seria essencial ao seu propósito, qual seja, evidenciar o fundamento apriorístico da ciência da ação humana.   

***

PS: Em um próximo momento analisaremos os problemas e obscuridades da doutrina kantiana de modo a ressaltar as dificuldades de admiti-la na epistemologia contemporânea. Finalmente, analisaremos detalhadamente o capítulo I de A Ação Humana, a ver se Mises sustenta ou não a existência de juízos sintéticos a priori.


[1] JOLIVET, R. Curso de filosofia, 1995, p. 19.
[2] Cf. KANT. Crítica da Razão pura. 2000, p. 58.
[3] JOLIVET. op. cit. p. 40.



Referências

JOLIVET, Régis. Curso de filosofia; tradução de  Eduardo Prado de Mendonça. Rio de Janeiro: Agir, 1995.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão pura; tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 2000.