domingo, 17 de novembro de 2013

Leitura do Livro I da Ilíada em grego antigo

 
 
O que torna fantástico esse trabalho de leitura do prof. Lombardo é que a Ilíada foi composta para ser cantada e ouvida e não lida.
 
 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Do que não se aproveita em uma dissertação de mestrado ( I )




Um homem chega de viajem a um país estrangeiro; pessoas na estação de trem poderiam descrever sua chegada, seus gestos e eventuais palavras, até mesmo seu estado de espírito: trata-se de um fato histórico? E se esse homem fosse Francisco Ferdinando a desembarcar em Belgrado? Estaríamos diante de um fato histórico? Os eventuais relatos, anotados por acaso ou curiosidade por um jornalista ou transeunte, se converteriam, por isso, em documentos históricos? Que difere a viajem de Chico e de Francisco, para que esta seja um dado da história factual, enquanto aquela só é histórica num sentido inteiramente diverso[1]?

Diz-se que Napoleão III representava os interesses na burguesia rural francesa[2], mas tal fato já não é apreendido como a chegada do arqueduque a Belgrado.

Que dizer então de um “evento” como a Revolução Francesa? Que compreender por esse termo? Atos individuais? Movimentos coletivos? O fruto de deliberações conscientes ou o produto de forças impessoais?
 
E se nos desvencilhamos da história eventual, nem por isso a questão do fato histórico se torna mais simples. Descreve-se o sistema político da República Romana, distingue-se ele da do sistema monárquico que o antecedeu e do império que o sucedeu. O que é aqui um fato? A existência do sistema num dado instante? Sua conservação numa duração específica? A abrupta interrupção de se funcionamento ou as lentas alterações que transformam? É o mesmo, o sistema que vigeu em Roma quando do assassinado dos Graco e quando da rebelião de Catilina? E entre os muitos sistemas que podem ser distinguidos numa dada sociedade num dado espaço de tempo, que relações estabelecer entre eles? Que relações estabelecer entre as pessoas que vivem, falam e agem e os sistemas?

A primeira questão que deveremos nos colocar, portanto, não é se a História deva ou não descrever e explicar fatos, ser mais ou menos factual, mas o que se entende por um fato; muito antes de querer distinguir o que se entende por um fenômeno econômico, por um fenômeno cultural, político ou intelectual, deve-se saber o que, para o historiado, pode legitimamente se concebido como um fenômeno. Pois a criação da moeda fiduciária não é um fenômeno no mesmo sentido do acordo de Breton-Woods; a feitiçaria no século XVI não é fenômeno no mesmo sentido que os dogmas católico-romanos ou a doutrina do Malleus Maleficarum; os fatores das grandes navegações não são fatos históricos no mesmo sentido que a chegada de Colombo ao continente americano. Eventos, estruturas, fatores, condições, atos individuais, forças, processos, atos coletivos, sistemas, época, culturas, sociedades, raças, classes, sexos, papeis sociais, regras jurídicas, costumes, publicações, etc — têm todas essas categorias referentes reais ou são todas ou algumas delas meros instrumentos heurísticos de explanação? Que visa o historiador: dizer o que aconteceu verdadeiramente, como aconteceu ou por que aconteceu? Ou tudo isso junto? O que, por outro lado, o leigo e a comunidade científica podem legitimamente esperar do trabalho do historiador?
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[1] Certamente os que fazem História “de baixo para cima” não concebem os atos, palavras e acontecimentos da vida do homem vulgar do mesmo modo que os antigos e persistentes historiadores tradicionais concebem a vida dos homens ilustres. Os micro-historiadores, por exemplo, embora dirijam atenção para as existências anônimas não se interessam pelo que nelas há de singular e individual, mas no que podem testemunhar de fenômenos amplos como “cultura”, “sociedade”, “camponês”, “classe”, etc. Movem-se, portanto, numa pré-compreensão ontológica do fato histórico diametralmente contrária aos que fazem biografia dos homens “de importância”.


[2] Cf. Marx. 18 de Brumário de Napoleão.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mises: Revista interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia

"Albo lapillo notare diem" - foi com este velho ditado romano que o professor Ubiratan Iorio, diretor acadêmico do Instituto Mises Brasil, anunciou o lançamento da revista acadêmica do instituto. Há duas ou três coisas notáveis nesse fato: trata-se de uma revista acadêmica ligada à Escola Austríaca de Economia; de uma publicação que convida os adversários dessa escola ao debate científico; e, enfim, de uma revista interdisciplinar. Se a primeira das razões da importância que tributo ao fato interessa mais aos que já conhecem a tradição econômica que remonta a Carl Menger, embora seja grande a esperança de que jovens e velhos acadêmicos venham conhece-la através da Mises, são as duas outras razões que maior entusiasmo despertam, sobretudo a quem já foi tomado por um pouco de desencanto sobre os rumos da vida universitária brasileira.
 
Não pode haver ciência onde o debate racional está como que encerrado, onde doutrinas, por vezes obscuras, de pouca compreensão mas fácil reprodução, são admitidas como verdades assentadas sobre misteriosas evocações de autoridade. Retomando uma longa tradição crítica, nem faz um século ainda, Sir Karl Popper lembrou da necessidade, em sentido lógico mesmo, de manter-se o universo das teorias científicas aberto a críticas mútuas.
 
Por fim a interdisciplinaridade da qual hoje muito se fala e pouco se pratica. É verdade que a economia é uma ciência autônoma (não se há de contestar isso), mas é verdade também que muitos desvios teóricos, metodológicos e epistemológicos poderiam, nela, terem sido evitados se a antiga tradição humanística do século XIX não houvesse se perdido em meio aos devaneios alfanuméricos. Caminhos por evidente equivocados poderiam ter sido evitados, fantasmas de equívocos superados (valor-trabalho, monopólios, bens públicos) que povoam a teratologia economia poderiam já ter caído em esquecimento; outros, bons caminhos, poderiam ter se encurtado se a ciência da economia não se tivesse deixado seduzir por imagens de perfeccionismo científico, malgrado apenas imaginado. A crítica do filósofo é sempre suspeita, mas raramente injusta por completo. E já que não se critica a ciência mesma, mas o estado atual de uma ciência, é razoável ter a esperança de que a revista Mises contribuirá para a refundação da ciência econômica entre os trópicos, onde a razão anda a faltar-nos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Do amor ao fascismo


Michel Foucault disse certa vez que a não análise do fenômeno do fascismo era um dos grandes fatos políticos do fim do século XX. Isso soa um tanto quanto estranho se tivermos em mente quanta tinta e papel foram gastos em todo tipo de obra sobre as desventuras humanas nas décadas  de 1930-40. Terá sentido somente essa constatação se tanto falatório não puder ser tido de fato como uma análise.
 
Há é claro muitas obras de qualidade e mesmo de excelência, e se cito O caminho da servidão de Hayek posso me dispensar de fazer outras indicações. Mas, vivendo aqui entre os trópicos, justamente na Brasília de Niemayer, não posso deixar de me admirar com o sortilégio que arrasta o pensamento político brasileiro à beira do delírio: denuncia-se o fascismo em toda a parte - ali onde os conservadores defendem a família ou os liberais os direitos do indivíduo - e, no entanto, cada gesto "progressista" resgata iluminações que antes só um Hitler ou um Mussolini ousaram por na pauta política. E se não reconhecem os fascistas seus antepassados, é porque o fascismo, de que acusam todos, é a imagem espelhar de seus mais secretos desejos, no entanto inconfessáveis. Se tanto falam, se tanto prazer encontram em discorrer horas a fio sobre o fascismo, sobre a sombra perpétua da "extrema-direita" (como se para eles pudesse haver uma direita que não é extrema: a extremidade opostas de seus desígnios sobre bons, belos e verdadeiros!), não seria porque se reconhecem nesses inimigos fantasmagóricos? Ou será porque não podem viver sem um inimigo tão vil e velhaco quanto eles próprios? E, aí, não será certo escrever poemas a esse amor de narciso, mais ridículo e perigoso possa parecer aos que dele são vítimas?
 
Há uma obscuridade no fascismo que não decorre de seu caráter assassino, que antecipa mesmo seus resultados genocidas. É justamente o que projeta de si mesmo em tudo que lhe é estranho a fim de justificar pela vileza do outro sua própria atrocidade. O poder atroz, ilimitado, brutal e, ao fim, ridículo - eis o fascismo.
 
Se pudéssemos analisar tal fenômeno em cada um de seus elementos, voltar à história para ver as ciladas que o preparam séculos após séculos, poderíamos ter uma visão mais clara do quanto daqueles anos cinzentos sobrevivem em nossos mais coloridos sonhos de rebeldia. Poderíamos ver, mas o quereríamos?
 
Ficaria ainda por explicar a obstinação desse amor e desses sonhos políticos que se cultivam sobre a terra fértil de um novo século, sob ainda os muitos mortos de outrora - perseguidos, oprimidos e exterminados - desapareceram. De onde vem esse amor, esse ímpeto e essa vontade de prosseguir no caminho da servidão?

terça-feira, 30 de abril de 2013

Hope - A análise de classe marxista vs análise de classe austríaca

No seguinte artigo, tenho três propostas. Primeiro, irei apresentar algumas teses que constituem o núcleo básico da teoria marxista da história. Afirmo que todas elas, em sua essência, estão inteiramente corretas. Em seguida, irei demonstrar como essas corretas teses marxistas foram derivadas de uma base completamente errônea. Por fim, quero demonstrar como a teoria austríaca, na tradição de Mises e Rothbard, pode fornecer uma explicação correta, embora categoricamente diferente, da validade destas teses marxistas.

Deixe-me começar com o núcleo básico do sistema de crenças marxista:[1]

(1) "A história da humanidade é a história da lutas de classe."[2] É a história das lutas entre uma classe dominante relativamente pequena e uma classe de explorados bastante numerosa. A principal forma de exploração é econômica: a classe dominante expropria parte da produção gerada pelos explorados — ou, como dizem os marxistas, a classe dominante "se apropria da mais-valia social e a utiliza para seus próprios propósitos de consumo."

(2) A classe dominante é unida pelo seu interesse comum de manter sua posição exploratória e maximizar sua mais-valia apropriada espoliativamente. Ela nunca deliberadamente abre mão do poder ou da renda advinda da exploração. Logo, qualquer perda de poder ou de renda da classe exploradora só será alcançada por meio de conflitos, cujos resultados efetivos vão depender, em última instância, da consciência de classe dos explorados — isto é, se os explorados estão cientes das suas próprias condições, o quão cientes estão disso e, principalmente, se estão conscientemente unidos aos outros membros da sua classe em oposição conjunta à exploração.

(3) O domínio de classe se manifesta essencialmente através de arranjos específicos que estão relacionados à forma como os direitos de propriedade são estipulados — ou, na terminologia marxista, na forma de "relações de produção" específicas. Para proteger esse arranjo ou essa relação de produção, a classe dominante forma o estado e assume seu comando, transformando-o em um aparato de compulsão e coerção. O estado impõe uma determinada estrutura de classes e estimula a sua reprodução através da administração de um sistema de "justiça de classe", e ajuda na criação e no sustento de uma superestrutura ideológica voltada para dar legitimidade à existência do domínio de classe.

(4) Internamente, o processo de competição dentro da classe dominante gera uma tendência de crescente concentração e centralização. Um sistema multipolar de exploração vai sendo gradualmente substituído por um sistema oligárquico ou monopolista. Um número cada vez menor de centros de exploração continua em operação — e aqueles que continuam estão cada vez mais integrados a uma ordem hierárquica. Externamente (isto é, no que diz respeito ao sistema internacional), esse processo de centralização levará a guerras imperialistas entre estados e à expansão territorial do domínio explorador. Quanto mais avançado estiver o processo de centralização, mais intensas serão as guerras.

(5) Finalmente, com a centralização e a expansão do domínio explorador gradualmente se aproximando do seu limite supremo de dominação global, o domínio de classe irá se tornar crescentemente incompatível com uma maior evolução e melhoria das "forças produtivas". Estagnações econômicas e crises se tornam cada vez mais rotineiras, criando assim as "condições objetivas" para o surgimento de uma revolucionária consciência de classe dos explorados. A situação se torna propícia para a criação de uma sociedade sem classes, para o "desaparecimento do estado", com o governo do homem sobre o homem sendo substituído pela simples administração das coisas[3]. Como resultado, haverá uma prosperidade econômica sem precedentes.

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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Henri Poincaré

Nasceu neste dia 29 de Abril, o matemático e filósofo da ciência francês Henri Poincaré, uma das
maiores mentes do século XX. Poincaré desenvolveu muitos aspectos da teoria de Lorentz que permitiram o estabelecimento da teoria da relatividade restrita.

Além de grande matemático, Poincaré foi um filósofo da ciência (a maior parte de seus trabalhos traduzidos para o português são nessa área) e um intelectual à moda antiga, intervindo no caso Dreyfus. 

domingo, 28 de abril de 2013

Filósofo do dia: Kurt Gödel

Kurt Gödel merece com certeza ser incluído entre os grandes filósofos do século XX dada a importância de seu trabalho em lógica matemática. De fato, os teoremas de Gödel colocam termo no grande projeto logístico iniciado por Frege demonstrando a impossibilidade de axiomatização completa e consistente de  da aritmética. O projeto de Frege já havia se deparado com o problema do paradoxo de Russel, uma anomalia na formalização da teoria dos conjuntos, mas de fato somente o trabalho de Gödel mostrará que ao fim esse projeto deveria esbarrar numa limitação natural.

O trabalho de Gödel, que estudou Kant quando jovem, parece confirmar a tese de que a razão humana possui limitações naturais, mas a discussão sobre as consequências filosóficas dos teoremas permanece reservada aos que conseguem dominar o formalismo da matemática avançada. 

Outro trabalho muito relevante de Gödel foi sua tese de doutorado que demonstra a completude do cálculo de predicados de primeira ordem. 


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Filósofo do dia: Thomas Reid

Nasceu neste dia 26 de Abril do ano de 1710, o filósofo escocês Thomas Reid, principal nome do
iluminismo escocês.

Do pensamento de Reid deve-se destacar defesa do "senso comum" contra a investida cética de David Hume. É inegável que Reid pertença a mesma tradição que moldou Hume e Berkeley, seus principais interlocutores e adversários.  Porém, ao partir justamente dessa tradição, Reid perecebe que a "teoria das ideias", segundo a qual o objeto da mente é uma ideia, conduz necessariamente a conclusões céticas. Assim, rejeitando a própria validade da noção de "ideia" para a teoria do conhecimento, Reid pretende evitar as consequências céticas que decorrem de sua admissão. 

A teoria do conhecimento posterior parecer ter de algum modo dado razão a Reid: a "teoria das ideias" não sobreviverá ao século XVIII. E, contudo, esse grande filósofo ainda é pouco conhecido entre nós. Talvez porque tenhamos sempre a tendência de preferir filosofias obscuras àquela clareza de pensamento tão típica da tradição inglesa. 

L. Wittgenstein - Palavra e Silêncio

Diz-se que há dois filósofos: um primeiro e um segundo Wittgenstein[1]. O primeiro foi sobretudo um lógico, a serviço do projeto que Frege imaginou e ao Russel deu continuidade — a lógica matemática, o logicismo e o empirismo lógico muito deveram ao autor do TractatusLogicu-Philosophicus; o segundo, crítico do primeiro, incompreensível para os admiradores do primeiro[2], teria retomado, em termos linguísticos, toda uma tradição do pragmatismo, ocupando-se com a linguagem ordinária e a comunicação intersubjetiva — a análise dos atos de fala (spreechacts) de Austin e Searle e derivados como a nova retórica reivindicam no autor das Investigações Filosóficas seu fundador ou precursor.
           
Afora o lirismo sempre encantador da duplicação da persona, é preciso reconhecer a divisão da obra de Wittgenstein é mais realistas do que as divisões tradicionais a que todo opus filosófico está sujeito: fala-se de um primeiro e de um segundo Heidegger; de três fases em Nietzsche e Foucault, de dois Kants ao menos, mas em todos esses casos a divisão é certamente muito mais didática que teórica, e, mesmo quando é teórica, implica muito mais a mudança de tema do que a construção de um novo projeto. Entre WI e WII, porém, as diferenças são tantas, o estilo é tão incongruente e os mesmos temas tratados de modo tão distinto, que nada há o que fazer senão reconhecer que não se trata aqui e ali de um mesmo filósofo.
         
A questão da linguagem situa-se, assim, de modo bastante diferente que consultemos o Tractatus, quer perscrutemos as Investigações. Diz-se: aqui há uma filosofia da linguagem ideal, ali uma filosofia da linguagem ordinária; duas filosofias, um só filósofo. Mas isso não é só inexato como também equívoco. A conceitografiafregeana, que dá lugar ao CPC[3], certamente é abordada no Tractatus, mas não constitui o todo do que WI chama, então, “linguagem”; por outro lado, as Investigações darão lugar a todo um formalismo, nem sempre claro como mostram os trabalhos de Habermas, em torno das funções de uso: não se exclui o formalismo e a linguagem ideal, mas todo o projeto do Tractatus, a concepção mesma de uma linguagem limitada por uma Forma transcendental unitária. Não é, pois, o formalismo uma boa medida da diferença entre um e outro projeto.

A questão da linguagem em Wittgenstein é, pois, equívoca. De quem se fala? De um ou outro, de um e outro? Também não saberíamos como a colocar devidamente. Porque então teríamos um problema filosófico do tipo: “que é a linguagem?” ou, em todo caso, “que é a linguagem para Wittgenstein?”. O melhor que poderíamos fazer talvez fosse imitar os comentadores de filosofia: “que é a linguagem para o primeiro ou para o segundo Wittgenstein?”. Mas ainda o equívoco seria muito evidente para que não nos envergonhássemos de imediato.
            
A leitura de Wittgenstein nos parece suscitar muitas perguntas retóricas. Mas deixemos disso e nos atenhamos aos textos. No caso, será melhor imitar os locutores que os comentadores.

Terapêutica da linguagem em WI: A Escada para o silêncio

“As minhas proposições são elucidativas pelo facto de que aquele que as compreende as reconhece afinal como falhas de sentido, quando por elas se elevou para lá delas. (Tem que, por assim dizer, deitar fora a escada, depois de ter subido por ela).
Tem que transcender estas proposições; depois vê o mundo a direito.
Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio.”[4]

Esta parte final da obra tem desafiado a compreensão dos leitores desde a primeira publicação (como o enigma de Édipo que se resolve sem se resolver). Com ela Wittgenstein escapa à inconsistência do empirismo lógico, mas parece arruinar seu próprio projeto de sanar as patologias da linguagem que dão lugar à filosofia tradicional. Ela implica no curioso convite ao silêncio, principalmente ao silêncio com relação ao que fora dito pelo próprio Tractatus. Deveríamos, então, nos conformar com ela e nos recusar a falar de qualquer doutrina de WI, pois, afinal, não é ele mesmo a dizer que nada diz? Não se pode responder essa pergunta. Ao invés, reconheçamos que os comentadores não cessaram de encontrar teses e doutrinas nesse livro paradoxal. E, se, mesmo grandes filósofos como Lord Russel encontram aqui muita filosofia séria, por que não poderíamos nós encontrar aqui do que falar a respeito da sua concepção da linguagem?
            
 Não há outro remédio: desconsideremos a sura 6.54. De resto, parece que encontraremos um tratado rico de ensinamentos, principalmente quanto às patologias (filosofia tradicional) que surgem por não se dar a devida atenção à linguagem. Esse não é um tema novo, o próprio Frege já o entrevia quando postulava a necessidade de uma língua filosófica que pudesse evitar os equívocos aos quais os filósofos são particularmente suscetíveis[5]. Mas tão logo vejamos essa medicina linguística em ação, teremos que assumir que as coisas não se passam exatamente como os comentadores (principalmente os afeitos teses ontológicas e éticas no Tractatus) preferem acreditar. Consideremos o mais célebre de todos os sintomas: o paradoxo de Russel. Ele fez soçobrar outrora o grande projeto de Frege e perturbou o sono do autor dos Principia até que o fosse capaz resolver com a teoria dos tipos. Mas o médico não parece se imprecionar com os lamentos do paciente. Este diz: “dói-me quando faço isso”; aquele responde: “não faça isso!” — Assim, anedoticamente, pode-se resumir a resolução de Wittgenstein para o paradoxo:

Suponhamos por exemplo que a função F(fx) podia ser o seu próprio argumento; então haveria também uma proposição: “F(F[fx])”, e nesta, a função exterior F e a função interior F teriam que ter denotações diferentes, pois a função interior tem a forma φ(fx), a função exterior, a forma ψ(φ[fx]). Comum às duas funções é apenas a letra “F”, que contudo nada designa.

            
Estranha medicina! WI havia prometido resolver todos os problemas da filosofia, havia mesmo dito na introdução que todos eles encontravam respostas verdadeiras, definitivas e intocáveis no Tractatus. Agora, porém, parece dizer: “não faça isso! não crie problemas”. Por mais misterioso que isso pareça, tem sua razão dizer na concepção geral da linguagem do Tractaus: a linguagem é transitiva, i.e., diz-se algo do mundo, logo “nenhuma proposição pode declarar alguma coisa sobre si própria, porque o sinal proposicional não pode estar contido em si mesmo” (3.332).
            
Assim, a concepção de uma linguagem que só pode ser transitiva, composta de proposições que só podem dizer algo do mundo; a concepção do dizer enquanto situado no limite da linguagem, como o olho, que não pode se ver porque está no limite do campo visual, implica um novo convite ao silêncio. Não é somente a última sura, cuja reversão sobre o todo do Tractatus parece agora um paradoxo do paradoxo, que implica uma “iniciação ao silêncio”. Cada proposição, na medida em que se apóia nessa concepção limiar da linguagem, é um átomo de silêncio significante. WI reduz ao vazio o conteúdo significativo de suas proposições, mas nem por isso as reduz ao nada: permanece a forma, que é a forma de um gesto que mostra, que quer deter a patologia antes que seu sintoma possa aparecer. 

Psicopatologia da linguagem em WII

Ao silêncio sucede o silêncio. Após escrever o Tractatus, WI desaparece como que prisioneiro da altitude a que chegou. E como poderia voltar se jogou fora a escada? Deixemo-lo, nós também, portanto.
            
As Investigações Filosóficas aparecem como uma reação violenta, por vezes jocosa, ao acontecimento que acabamos de, própria ou impropriamente, comentar. WII sabe que há uma brecha na tirania do Tractatus. Aplica-lhe a própria medicina: “não suba pela escada!”. É que a concepção da linguagem do Tractatus, atomística e transitiva, tal como aquela de Santo Agostinho, é questionável. A linguagem não funciona como WI pensava, ninguém diz desse modo e, logo, a sentença de silêncio da famigerada 6.53 só incide sobre o próprio silêncio: “Santo Agostinho descreve, poderíamos dizer, um sistema de comunicação; só que nem tudo aquilo a que chamamos linguagem é este sistema” (§2)
             
Nesse caso, WI e WII são como duas faces da mesma moeda. Isso se torna bastante claro quando percebemos o resultado final das Investigações: tornar impossível que os problemas filosóficos apareceçam, pois a filosofia não é um jogo de linguagem, mas um equívoco suscitado por se perder de vista a multiplicidade dos jogos de linguagem. Por exemplo, acerca do grande problema da atomística lógica suscitado por palavras como “este”, se pergunta WII: “como é que se chega à idéia de querer fazer precisamente desta palavra um nome, quando ela obviamente não é um nome?” (§39) Ora, WI admitia a existência de problemas filosóficos, que determinado uso da linguagem poderia resolver. WII vai ainda mais longe, é o uso da linguagem que torna os problemas filosóficos destituídos de sentido ab ovo.
            
Mas esse não-sentido não tem mais a forma um tanto quanto mística que WI lhe dava. Ao contrário, assume contornos patéticos:

                                      Um problema filosófico tem a seguinte forma: “Não me sei orientar”
De nenhuma maneira deve a Filosofia tocar no uso real da linguagem; só o pode enfim descrever.
Assim, também não o pode fundamentar.
A Filosofia deixa tudo ser como é. (§ 124)

Mas se é assim, então WII precede WI, logicamente. Isso se vê claramente pelo fato de que a terapêutica do Tractatusera, se bem que um tanto quanto anedoticamente, um modo legítimo de resolver os problemas de linguagem através do uso da mesma: o correto uso dos símbolos (teoria dos tipos) não gera paradoxos. Mas como se poderia chegar a um correto uso da linguagem senão através de um mau uso? WI sempre poderia dizer “não faça isso”, mas não poderia esperar que o paciente o obedecesse. Esse problema, pouco visível à superfície do texto, é resolvido por WII ao dizer: “eis um louco, um homem que se inflige uma dor desnecessária”.
            
Para WI, o não-sentido parecia ameaçar recobrir quase todo o campo da linguagem. Era preciso salvar ao menos uma região, a da linguagem denotativa, de seu mau uso ordinário. O não-sentido era a regra, o sentido a exceção. Assim o projeto de uma linguagem ideal e a filosofia de uma linguagem ideal eram esforços justificáveis. E se permanece a dúvida de se WI pode se incluído entre os desenvolvedores desse projeto, é indubitável que ele o respeitava o respondia ao seu modo próprio.
            
Em WII, a situação se inverte: em todo lugar há sentido e sanidade, menos nessa região onde problemas dessa ordem surgem. Os filósofos são loucos com os quais não vale a pena se ocupar — ele menos não seria menos louco se fizesse o contrário. Daí o inverso do projeto de Frege: é preciso deixar a linguagem tal como é. E o máximo que se pode fazer é descrevê-la tal como é. Não é certo que Russel tenha compreendido a violência desse ataque, mas certamente acreditava que Wittgenstein deixara de ser filósofo.
            
O único problema filosófico é que haja problemas filosóficos, poderíamos dizer, parafraseando o poeta. Mas problemas filosóficos são destituídos de sentido. Logo, não há problemas filosóficos. Ao menos quanto à Filosofia, a sentença de silêncio permanece e o enigma se renova.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratado Lógico-Filosófico/ Investigações Filosóficas. Lisboa: Fundação CalousteGulbenkian.


[1] Daqui em diante, WI e WII.
[2] Russel não deixará de lamentar essa “viragem” que fez com que seu principal interlocutor deixasse de se ocupar com os problemas da filosofia séria.
[3] Cálculo Proposicional Clássico.
[4]Tractatus Logico-Philosophicus, 6.54. Daqui em diante a referência segue a numeração das suras para o Tractatus e a numeração dos parágrafos para as Investigações, o que diante de traduções e edições diversas permite uma melhor localização pelo leitor.
[5]Afinal é o mesmo projeto idealizado por Leibniz.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Filósofo do dia: Immanuel Kant

Nasceu neste dia 22 de abril o grandes filósofos Immanuel Kant.

A obra de Kant pode ser dividida em três momentos:

Período pré-crítico: Vai dos primeiros escritos de filosofia natural até a Dissertatio de mundi sensibilis atque inteligibillis forma et princiipis de 1770.

Período crítico: Compreende as três grandes Críticas: Crítica da razão pura, Crítica da razão prática e Crítica da faculdade de julgar e obras extravagantes.

Últimos escritos: há um conjunto de escritos que deveriam formar uma grande obra, mas que permaneceram inéditos e são hoje conhecidos como Opus Postumum.

Característica marcante do pensamento de Kant foi o idealismo formal com o qual ele pretendia resolver a disputa de racionalistas e empiristas em torno do problema da origem do conhecimento. A solução kantinaa consiste em afirmar que, embora todo o nosso conhecimento comece pelos sentidos, nem todo ele se origina a partir dos sentidos. Com isso se resolvia, ao menos a seus olhos, a dificuldade empirista em explicar a origem dos conhecimentos matemáticos e a obscuridade da noção de "ideias inatas" dos racionalistas.

O apriorismo kantiano tem, pois, a característica de não ser nem inatista nem abstracionista: nenhum conteúdo pertence à razão por natureza, mas a razão tem uma natureza formal apta a receber o conteúdo dos sentidos.

A partir daí segue-se que a metafísica é uma impossibilidade racional, ou melhor, uma ilusão da razão projetada a partir de um impulso natural para exceder seus limites legítimos.

E, contudo, se a filosofia especulativa podia bem passar sem o apelo às ilusões metafísicas, a filosofia prática não o poderá. Embora tente construir uma filosofia moral com base nos mesmos pressupostos da filosofia especulativa, ou seja, no idealismo formal, restará a necessidade de recuperar as ideias metafísicas de Deus e da liberdade no conhecimento prático. Introduz-se aí, talvez, pela primeira vez a noção de "ficção racional": se não podemos conhecer especulativamente a liberdade, e´preciso agir "como se" fossemos de fato livres.

Daí em diante, parece-me, o problema da ficção racional domina mais e mais a obra de Kant: da questão da teleologia na última crítica aos desdobramentos desse problema no Opus Postumum.






domingo, 21 de abril de 2013

II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal: Palestras do prof. Ubiratan Iorio e de Leandro Roque

Prof. Ubiratan Iorio
Na manhã de ontem tivemos a honra de receber aqui em Brasília o professor Ubiratan Iorio, diretor
acadêmico do IMB. Sua palestra sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE) foi uma oportunidade de iniciação para aqueles que estão conhecendo agora a Escola Austríaca e de aprofundamento para os que já conhecem. Com bom humor e clareza, o prof. Iorio expôs os principais elementos da TACE, as diferenças dela para teorias alternativas (keynesianas e monetaristas) e as razões que a tornam a melhor explicação para os ciclos econômicos.

Após um breve coffee break, Leandro Roque, editor e tradutor do IMB, apresentou uma análise dos dados da economia brasileira através da TACE. Com o mesmo rigor que caracteriza seus artigos publicados no Instituto, Roque nos ofereceu um panorama da situação atual que nos encontramos, dos efeitos da atuação do Banco Central na oferta monetária, mas frisando, sobretudo, a capacidade dos bancos (públicos ou privados) criarem moeda através dos sistema conhecido como "reservas fracionárias". Confesso que pouco entendo dessas coisas (SELIC, mercado interbancário, M2 etc) e justamente por isso a palestra do Leandro me foi extremamente proveitosa. 

Hélio Beltrão
Encerradas as atividades da manhã, ainda tivemos uma última oportunidade de conversar com os membros do IMB na Livraria Cultura numa mesa redonda que contou com a presença adicional de Helio Beltrão, presidente do Instituto. 

Estou certo que todos os que participaram de um ou mais eventos deste II Encontro ficaram hoje se sentem revigorados e prontos para levar adiante o pensamento austríaco. 

Resta agradecer ao Daniel Marchi, coordenador do Grupo de Estudos da Escola Austríaca do Distrito Federal por seu empenho em organizar o evento e aos demais membros que gentilmente me receberam e com os quais pude ter, neste fim de semana, longas e boas conversas sobre a EA. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

II Encontro da Escola Austríaca de Brasília: Palestra de Bruno Garschagen

Bem, acabo de voltar do primeiro evento do II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal:
palestra de Bruno Garschagen.

O que posso dizer é que, estando a dez anos envolvido em eventos acadêmicos, poucas vezes vi um evento no qual a discussão racional,  a clareza argumentativa e a retidão de pensamento estivessem tão presentes quanto neste. 

Com invejável limpidez, Bruno nos ofereceu um diagnóstico da situação atual do ensino no Brasil, de sua vida intelectual e as razões para a situação atual. 

Fosse para sintetizar em uma máxima a palestra esta seria: é preciso, para escolher uma visão de mundo , ter contato com uma multiplicidade de visões. Infelizmente, o que a academia hoje oferece é a visão hegemônica das esquerdas: o sonho de Gramsci tornado realidade.

Resta esperança? Mas é claro! Se numa sexta à noite foi possível quase lotar o auditório do IESB de defensores da liberdade, sempre há de haver esperança.

Daqui a pouco, às 08: 30 o encontro prossegue com a conferência do Prof. Ubiratan Iorio no IESB e, logo a seguir, uma conversa com Leandro Roque, editor e tradutor do IMB.

Estarei lá e relato desse grande evento para vocês.

II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal

Começa hoje o II Encontro da Escola Austríaca do Distrito Federal. Não deixa de ser curioso que essa Brasília, tão dominada pelo estatismo e pelo funcionalismo público, seja uma dos primeiros lugares a formar um grupo sólido de pensadores em torno da EA. Ou talvez por isso mesmo: de tal ordem é a presença do poder público no Distrito Federal, de tal modo sua presença é constante, que aqui, mais que em outros lugares, a visão austríaca prospera a cada dia. E, prospera, vejam, justamente entre os servidores do estado. Incoerência? De forma alguma. Quem estaria mais apto a perceber os males do gigantismo estatal senão aqueles que estão dentro da máquina? Pois o que nos causa aversão não é a ineficiência do Estado para o bem (deixamos isso aos sociais-democratas), mas a grande eficiência estatal para o mal.

Por isso este II Encontro é uma conquista. Uma conquista principalmente daqueles que iniciaram este grupo.

Na programação de hoje, teremos o privilégio de receber Bruno Garschagen (Podcaster do IMB, colunista dos sites OrdemLivre.org e O Insurgente). 

A palestra será aberta ao público e ocorrerá no IESB, L2 Norte e começará às 19:00.

Estão todos convidados.

Estarei lá e amanhã relato como foi a palestra!


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Socialismo do século XXI

Venezuela: Depois do Chaves o Girafales
Pois é... numa eleição em que não faltaram milhares de denúncias de fraudes, o Sr. Nicolas Maduro, já
ilegal e interinamente na presidência da Venezuela, conseguiu dar ares de legitimidade à ditadura bolivariana.

Não conheço a Venezuela e pouco sei desse senhor que veio à cena durante aquela tragicomédia que foi a enfermidade de Hugo Chaves, mas há alguns fatos que não se pode ignorar:

1º) Desde que Hugo Chaves não compareceu à sua posse, a Venezuela está sob ditadura civil-militar e assim permanece;

2º) Depois de estatizar os meios de comunicação, instituir milícias armadas e comprar as Forças Armadas, o bolivarianismo, mal esfriou o cadáver de seu inventor, já é coisa do passado: a vitória apertada e, sobretudo fraudulenta, de Maduro obrigará a gangue dos bolivarianos a sustentar seu poder à força;

3º) Maduro é um mero fantoche nas mãos de uma elite corrupta, ligada ao narcotráfico e sustentada politicamente por figurões da esquerda latino-americana: O sr. Luis Inácio e a sra. Cristina Kirchner  principalmente. 

4º) Não há muito o que se comemorar na queda do "socialismo do século XXI". Ele nada mais é que uma caricatura, cuja "virtude" é fazer parecer os partidos socialistas como de "centro". E por aí avança o socialismo do século XIX na Argentina; e por aí avança o socialismo do século XX (aquele de Gramsci) no Brasil. 

Vem bem a propósito que o Instituto Mises tenha publicado ontem um texto de seu patrono contra sobre as principais teses de Marx. É preciso retomar a luta (intelectual é claro) contra essas ideias tão velhas quanto estapafúrdias que infelizmente ainda povoam a mente de gente sem conhecimento em economia e carente de discernimento lógico. É preciso mostrar uma vez mais que as teorias de Marx sobre a mais-valida, a classes sociais e a história são completamente destituídas de sentido ou, no melhor dos casos, evidentemente falsas. 

Quanto ao caso venezuelano, as melhores análises a que tive acesso são as do colunista Reinaldo Azevedo. É dele a tese, que já atravessou o Atlântico, segundo a qual o chavismo, agora moribundo, se converte em uma pura e simples ditadura militar.

terça-feira, 16 de abril de 2013

David Gordon - Mises contra Marx

Se instados a citar o principal crítico do marxismo, a maioria dos economistas simpáticos ao livre mercado iria mencionar Eugen von Böhm-Bawerk, que em seu tratado Capital and Interest (Capital e Juro) e em seu folheto Karl Marx and the Close of His System (Karl Marx e o Fim do Seu Sistema) demoliu por completo a teoria do valor-trabalho, o sustentáculo da economia marxista.

Mas a teoria do valor-trabalho é apenas uma parte do marxismo. E quanto ao resto do sistema? É aqui que se faz necessário analisar a obra do maior e melhor aluno de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, cuja análise devastadora do marxismo é de inigualável excelência. Sua contribuição à crítica do marxismo é encontrada principalmente em dois de seus livros: Socialismo e Teoria e História.

[...]

Mises, mais vigorosamente do que qualquer outro crítico de Marx, transpôs e descortinou a essência dessa visão falaciosa. Se todo o pensamento sobre questões sociais e econômicas se baseia na questão social, o que dizer sobre o próprio sistema marxista? Se, como Marx orgulhosamente proclamava, sua intenção era explicar para a classe operária sua condição de espoliada, por que então qualquer uma de suas visões deveria ser aceita como verdadeira? Mises corretamente apontou que a visão de Marx era autorefutável: se todo pensamento social é ideológico, então a proposição marxista é em si ideológica, o que faz com que seus fundamentos já nasçam naturalmente solapados. Em sua obra Teorias Sobre a Mais-Valia, Marx não consegue conter seu escárnio em relação à "apologética" de vários economistas burgueses. Ele não percebeu que, ao escarnecer constantemente a tendenciosidade de seus economistas contemporâneos, ele estava cavando a sepultura de seu enorme trabalho de propaganda em favor do proletariado.

[...]


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Filósofo do dia: Émile Durkheim

Émile Durkheim nascia neste dia 15 em 1858. Dominada pela tentativa de construção de uma ciência
dos fatos sociais a obra de Durkheim que, diga-se de passagem, não avançou muito desde então. Pior, deixado em segundo plano e preterido em favor ora do marxismo, ora de versões ainda mais bizarras e irracionalistas, a Sociologia se converteu, entre nós, em pouco mais que uma reunião de preconceitos filosóficos.

Ler Durkheim é extremamente prazeroso. Nele encontramos aquela probidade intelectual, aquele genuíno amor ao conhecimento sem o qual não se faz boa filosofia e, muito menos, boa ciência. 

Recomendo muito O Suicídio.

sábado, 13 de abril de 2013

PAS - 2013 - Obras de Filosofia

Para meus alunos que vão prestar o vestibular seriado da UnB (PAS) este ano, são as seguintes as obras de
Filosofia:

Sófocles - Antigona (1º Ano)

Já que literatura grega não é um componente curricular do Ensino Médio, suponho que que essa obra tenha que ser trabalhada em Filosofia. Trata-se da trágica história dos filhos incestuosos de Édipo e Jocasta (Antígona, Polinice e Etéocles), dramatizada em uma peça de teatro que levanta a questão da oposição entre o direito (e as obrigações) sagrado e religioso e o direito positivo e civil. 




Platão - Apologia de Sócrates (1º Ano)

Embora possa haver confusão já que existe uma obra de idêntico título de Xenofonte, é certo que a Apologia de Sócrates recomendada aqui é a que foi escrita por Platão. Trata-se da descrição e transcrição do julgamento do filósofo que, acusado de impiedade e de corromper a juventude, tem de defender-se perante seus pares atenienses sob pena de morte. 


Maquiavel - O príncipe (1º Ano)

Obra fundadora da moderna filosofia política e precursora da ciência política, esse é o mais popular escrito do filósofo florentino. A importância da obra está em abandonar o caráter normativo da filosofia política e se concentrar em problemas de fato, a saber, a conquista e manutenção do poder político. Não pode ser incluída entre as apologéticas do absolutismo já que não faz uma defesa do direito dos reis, mas tenta responder ao fato do poder, de como pode se conquistado e mantido. 

A obra está visivelmente muito deslocada em relação ao conteúdo curricular do primeiro ano de Filosofia, razão que nos leva a deduzir que está sendo recomendada pelo intertexto com a História e, talvez, com a Sociologia. 


Voltaire - Cândido ou o otimismo (2º Ano)

Os alunos que começaram o PAS ano passado têm uma carga mais pesada em termos de literatura filosófica. A começar por esse romance de François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire. Um dos mais conhecidos iluministas franceses, Voltaire foi o porta-voz do Esclarecimento e uma das vozes mais influentes na Europa setecentista. Neste romance, em que não falta o sarcasmo e o humor próprios do filósofo, Voltaire contesta a tese a tese otimista de Leibniz, segundo a qual este é "o melhor dos mundos possivies" e tudo ocorre sempre da melhor forma. O romance deve ser lido, principalmente quanto a seu desfecho, como uma crítica virulenta da metafísica.


Locke - Ensaio sobre o entendimento humano (2º Ano)

Um dos principais trabalhos do filósofo inglês John Locke, o Ensaio sobre o entendimento humano apresenta sua famosa tese da "tábula rasa", segundo a qual todos os seres humanos nascem absolutamente desprovidos de qualquer ideia ou conhecimento. Contra a tese das ideias inatas, defendida por Descartes e outros racionalistas, Locke propõe que todo o nosso conhecimento deriva da impressões dos sentidos. Vindo de uma tradição que remonta a Francis Bacon, esse tratado de Locke serviu de inspiração ao movimento empirista britânico que culminará na obra cética de David Hume.


Descartes - Discurso do método (2º Ano)

René Descartes, físico, matemático e filósofo, foi o ícone máximo e fundador do racionalismo moderno. Seu Discurso sobre o método, ou Discurso do método, apareceu como um tipo de introdução aos trabalhos matemáticos e físicos do filósofo (Dióptica, Meteoros e Geometria). Assistimos nele ao nascimento da moderna concepção do método científico enquanto a própria ciência moderna começava a ser construída pelo trabalho do seu contemporâneo Galileu Galilei. O ponto principal da obra está na concepção de que o sujeito, a razão humana, é o elemento fundador do conhecimento: conhecer é um ato que supõe um sujeito e todo conhecimento é dependente da evidência primeira desse sujeito e de sua atividade cognitiva. 


***

O quanto pudermos trabalharemos estas obras este ano, de modo que vou disponibilizar cópias impressas das mesmas em breve. Aqueles que conseguem ler no formato .pdf já podem desde já acessar as obras e começar a leitura. 

A partir do segundo semestre postarei comentários regulares sobre essas obras para auxiliar a leitura, mas é imprescindível que o candidato leia os textos originais - é assim que se estuda filosofia!


Bons estudos!









sexta-feira, 12 de abril de 2013

Filósofo do dia: Sêneca

Rubens. Der sterbende  Seneca. 1612.

A morte de Sêneca permanece instrutiva para os que se dedicam à filosofia: mostra os riscos e
responsabilidades de um ofício, cujos louros são sempre colhidos pelos inaptos e a infâmia pelos probos.

É verdade que o pouco conhecimento que hoje se têm dos clássicos romanos anuviou o severo juízo histórico sobre o filósofo: “homem corrupto, modelo de todas as baixezas”, menciona Leoni[1]. Contrariamente à Cícero, cujas autodefesas em irresistível oratória podem seduzir mesmo os admiradores de César, de Sêneca restaram-nos somente suas reflexões filosóficas e as acusações contra seu caráter.

A juventude de Sêneca ele o passou o tumultuado ambiente da formação do Império, quando ato após ato dos césares, da República já se ia restando somente o nome e o senado se convertia num conselho de intrigas. Vindo da Espanha, tal como Lucano, Quintiliano e Marcial, Sêneca assistiu ao esse movimento que, de Augusto a Nero, seu algoz, retirava ao Senado todas as prerrogativas.

Como é óbvio, a República não caiu de um dia para a noite.  Augusto, fundando o império, deixou a seus sucessores a tarefa de consolidá-lo e enterrar o ideal republicano, sob a sombra da guerra civil e do golpe de estado. Tibério começou a perseguição aos seus adversários e Calígula, talvez enlouquecido prodigalizou escândalos e crueldades. Teve de ser assassinado. Veremos então o receio da própria morte ser carregada junto ao nome de César como herança a corroer de paranoia o espírito de quase todos os imperadores.

Savolini. La morte di Seneca.1639
Chegando Calígula ao seu justo fim, o exército e a guarda pretoriana elegeram seu tio Cláudio para sucedê-lo e a República suspirou pela última vez. Não fosse por isso, o sonho ainda nutrido no Senado de por fim à “dinastia” dos cesares teria restaurado a República. Mas então a fonte do poder já havia se deslocado, do Senado e das Leis, para o Exército e a força: foi quando César atravessou o Rubicão lançando ao ar, ou melhor, à guerra a sorte de Roma – alea ajacta est! -

Tendo adotado Nero, filho de sua segunda mulher Agripina, como herdeiro e sucessor, Cláudio morre, provavelmente envenenado, sem poder revogar o ato. A ideia, terrível a um século atrás, de uma monarquia hereditária, já se havia estabelecido e o bastardo se torna imperador de Roma, praticamente ainda uma criança. Sêneca que fora desterrado graças às intrigas da primeira mulher de Cláudio, Messalina, retorna a Roma a pedido de Agripina para ser tutor de Nero, ainda antes que este tenha subido ao trono.

Sêneca passa a conselheiro quando Cláudio, graças a Agripina, torna-se deus ao comer cogumelos[2].  Passados os primeiros bons anos do governo de Nero, em que a influência de Sêneca e Afrânio, mitigaram a sordidez do príncipe, a sordidez de Agripina conduz o império à loucura: tanto fez essa mulher que foi morta pelo próprio filho e Afrânio fora talvez envenenado. Sem nada mais poder fazer, Sêneca pede ao imperador para se retirar da vida pública.

Mesmo no isolamento, contudo, Sêneca não escapou da paranoia de Nero e, quando em 65 a.d, uma conjuração é descoberta contra o imperador, é também contra o antigo preceptor que a ira de César desaba. Leoni, com base nos Anais de Tácito, narra os últimos momentos do filósofo:

David. La mort de Sèneca. 1773
“O núncio imperial foi pela tarde à ‘vila’ suburbana de Sêneca, enquanto este jantava com a esposa e dois amigos. Introduzido, o núncio expõe a acusação de ter Sêneca participado da conjuração. O velho nega energicamente e pede ao tribuno que lembre a Nero como ele não tinha espírito dado à mentira, quer por adulação quer por servilismo. Volta daí a pouco o tribuno com a ordem fatal. Sêneca não se abala e pede as tábuas do testamento; tendo respondido que lhe é vedado, dirige-se aos amigos: “Se não me é dado atestar-vos de outra forma meu reconhecimento, deixo-vos o que posso: a imagem de minha vida virtuosa’. E consolando os amigos desesperados, abraça a esposa, Pompéia Paulina: esta pede a graça de morrer com ele. Um mesmo golpe corta as veias de seus braços. Mas do corpo do velho exausto lentamente saía sangue: outras veias são cortadas para apressar a morte; e ele mesmo continua a falar, ditando palavras que, no dizer de Tácito, se tornaram populares. À esposa, no entanto, transportada para outro quarto, por ordem do imperador lhe foi impedida a morte. Sêneca, vendo que as muitas feridas não bastavam, bebe uma porção de veneno; em seguida, toma banho de agua quente, depois um banho de vapores quentes: faltam-lhe as forças e adormece, placidamente, no sono da morte”[3]


Os estoicos, tendo colhido de Sócrates esse bom ensinamento sobre a morte, souberam pô-lo em prática, e Sêneca, talvez o maior dos estoicos romanos, tem a morte a mais semelhante a do antigo mestre grego. As obras de Sêneca são, assim, um convite à arte do bem viver e do bem morrer.


[1] Leoni, G.D. Estudo introdutivo às obras de Sêneca. Sâo Paulo: Editora Atena, 1957, p. 11.
[2] É uma anedota do próprio Nero que dizia que os cogumelos eram alimentos dos deuses, já que Cláudio, por causa dos cogumelos tornou-se um deus. Id. Ibid. p. 16.
[3] Id. Ibid. p. 20-21.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

R.I.P. Margareth Tatcher

Faleceu hoje aos 87 anos a "Dama de Ferro", a baronesa Margareth Thatcher, ex-primeira-ministra britânica.

Certamente uma grande perda para o mundo liberal.

Muitos libertários têm criticado o liberalismo dos anos 80 como insuficiente. Bom, isso bem pode ser verdade, mas é verdade também que o mundo seria mais livre e próspero hoje se o legado de pessoas como Thatcher houvesse se prolongado.

E, como um pequeno passo no caminho da liberdade é um grande feito, essa mulher merce nossa homenagem e admiração. 

Descanse em paz, dama de ferro!


Filósofo do dia: Edmund Husserl


Criador da fenomenologia, Edmund Husserl nasceu neste dia 8 de abril no ano de 1859.

A obra de Husserl é densa e difícil e, talvez por isso, é pouco traduzida, pouco conhecida e menos ainda compreendida entre os trópicos. 

Doutor em Matemática, Husserl resolveu se dedicar à Filosofia devido a influência de Franz Brentano, talvez o maior dos aristotelistas do século XIX. Ainda assim, os primeiros trabalhos de Husserl se inscrevem no campo da Filosofia da Matemática: Sobre o conceito de número e Filosofia da Aritmética

Confesso: não li tais obras, que, creio, sequer foram traduzidas para o português. Mas li algumas das Investigações Lógicas que ainda considero o ponto alto do pensamento de Husserl. 

As obras posteriores, das quais conheço as Idéias para uma fenomenologia pura e uma filosofia fenomenológica e as Meditações Cartesianas parecem constituir um tipo de viragem no interior do pensamento do filósofo, inclusive contra temas de suas obras anteriores e de seu mestre Brentano. Embora instigantes a meu ver, carecem um pouco daquela clareza matemáticas das Investigações de modo que, obscurecidas, talvez, por um vocabulário hermético, nunca me parecerão atingir seu objetivo: a fundamentação última e definitiva da Ciência.

Seria precipitado concluir que o projeto fundacional de Husserl tenha fracassado, mas o fato de que seus principais discípulos tenha se desviado para uma filosofia literária e quase mística aponta um estranho paradoxo: reconhecido como precursor e mestre para pensadores tão diferentes quanto Heidegger, Sartre e Derrida, o pensamento de Husserl permanece em grande parte estranho e idiossincrático frente a esses projetos.  

Quanto a Mises, resta ainda investigar que conhecimento o filósofo-economista austríaco tinha da obras de Husserl e o que impacto esta pôde ter sobre seu pensamento. 



sábado, 6 de abril de 2013

Filósofo do dia: James Mill


Pouco conhecido em nosso meio o filósofo, historiador e economista James Mill, pais do também filósofo John Stuart Mill, nasceu neste dia 6 de abril, em 1773. 

Como historiador, escreveu a História da Índia Inglesa, que na época obteve grande sucesso.

Em economia, foi basicamente um ricardiano. Seus Elementos de Economia Política defendem a teoria do valor-trabalho e lançam a ideia de "incremento imerecido" do valor das propriedades, o qual poderia ser justamente tributado. 

É, contudo, no campo da filosofia política que James Mill ainda mantém alguma notoriedade. Em seu Ensaio sobre o governo, defendeu a democracia representativa contra a monarquia e a aristocracia. 

O argumento principal de Mill, coerente com sua visão ricardiana, se assenta na função do trabalho. O governo representativo seria ideal por minimizar, ao mesmo tempo, o risco da subtração do trabalho por outrem e o tempo necessário a tomar as decisões de interesse comum. 

Mill acaba por oferecer uma versão digamos trabalhista do princípio da má natureza humana de Hobbes. Segundo ele, como o trabalho é um mal para o indivíduo, mas uma necessidade para o seu bem estar, se possível cada indivíduo quererá viver do trabalho do outro. De modo que, a natureza humana guia os indivíduos para a agressão. 

Deixem nossas crianças em paz!

Adicionar legenda
Apesar de ser professor de escola pública, não posso concordar com a obrigatoriedade do ensino coletivo que, na prática, se reverte, para amplas camadas da população, na obrigatoriedade de inserir seus filhos no sistema de educação pública. 

Passo por alto as mazelas desse sistema para me concentrar na interpretação mais do que equivocada do "direito à educação". 

Que se entenda, à luz da Carta Constitucional, que o Estado é obrigado a disponibilizar serviços de educação vá lá, mas só se pode inferir daí a obrigação dos país em utilizar esse tipo de serviço quando concebemos que o Estado deva exercer uma tutela real e particular sobre todo e cada ser humano nascido no Brasil. 

Uma Constituição é sempre escrita para limitar os poderes do Estado e seus direitos são sempre direitos contra o Estado. Daí a primeira corrupção do sistema constitucional.

Falta completamente ao pensamento político estatal brasileiro a noção do permitido. Entre nós, algo é obrigatório ou é proibido.

Daí que a cada vez que o Estado queira fazer valer um "direito" expresso na Constituição, suas medidas, de fato, limitam, distorcem ou solapam direitos inalienáveis dos indivíduos.

Não é surpresa, pois, que agora, uma nova Lei federal imponha a Estados e Municípios a obrigação de fornecer serviços de educação pública a crianças a partir dos 4 anos de idade; ao mesmo, tempo, impõe aos pais a obrigação de fazer uso desses serviços.

Entendamos: o poder federal estabelece uma obrigação para os poderes locais e para os cidadãos, ferindo, ao mesmo tempo, o princípio federativo e as liberdades individuais. 

Por mal caminho vamos, por um caminho que já outras vezes passamos e sabemos aonde leva. 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Voltaire - O Ingênuo (Cap. I-VI)

Voltaire

CAPÍTULO I

Como a prior de Nossa Senhora da Montanha e a senhorita sua irmã encontraram um hurão.

Um dia S. Dunstan, irlandês de nacionalidade e santo de profissão, partiu da Irlanda a bordo de uma
pequena montanha que navegou para as costas da França, indo arribar à baia de Saint-Malo. Depois do que, deu ele a bênção à sua montanha, a qual lhe fez profundas reverências e voltou para a Irlanda pelo mesmo caminho por onde tinha vindo.
Dunstan fundou ali um pequeno priorado, dando-lhe o nome de priorado da Montanha, denominação que ainda hoje conserva, como todos sabem.
Ora, na tarde de 15 de julho de 1689, o abade de Kerkabon, prior de Nossa Senhora da Montanha, passeava à beira-mar com a senhorita de Kerkabon, sua irmã, para tomar a fresca. O prior, já um tanto avançado em idade, era um excelente eclesiástico, muito amado pelos seus paroquianos, depois de o ter sido outrora pelas suas paroquianas. O que lhe valera sobretudo grande consideração é que era o único clérigo da província que não precisava ser carregado para o leito depois de cear com os seus confrades. Sabia muito corretamente a sua teologia e, quando cansado de ler Santo Agostinho, divertia-se com Rabelais: de modo que todos diziam bem dele.
A senhorita de Kerkabon que jamais havia casado, embora vontade não lhe faltasse, ainda não perdera o frescor aos quarenta e cinco anos; boa e sensível de gênio, gostava de divertimentos e era devota.
Dizia o prior à irmã, olhando o mar:
— Ah! foi aqui que embarcou o nosso pobre irmão, com a nossa querida cunhada, a senhora de Kerkabon, sua esposa, na fragata Hirondelle, em 1669, para ir servir no Canadá. Se não o tivessem matado, poderíamos ter a esperança de tornar a vê-lo.
— Acreditas – dizia a senhorita de Kerkabon – que a nossa cunhada tenha sido devorada pelos iroqueses, como nos disseram? É certo que, se não a tivessem comido, teria voltado à sua terra. Hei de chorá-la toda a vida: era uma mulher encantadora; e nosso irmão, que era bastante inteligente, teria feito uma bela fortuna.
Enquanto assim se comoviam a tais lembranças, viram entrar na baía de Rance uma pequena embarcação que chegava com a maré: eram ingleses que vinham vender alguns gêneros de seu país. Saltaram em terra, sem preocupar-se com o senhor prior nem com a senhorita sua irmã, que ficou muito chocada com a desatenção.
Não sucedeu o mesmo com um jovem de excelente compleição que, saltando por cima da cabeça de seus companheiros, veio cair de pé em frente à senhorita. Cumprimentou-a com a cabeça, pois, pelos modos, não aprendera a fazer reverência. Seu aspecto e sua indumentária atraíram os olhares do irmão e da irmã. Tinha a cabeça descoberta, as pernas nuas, longas tranças, pequenas sandálias, e um gibão que lhe modelava o talhe esbelto; e um ar ao mesmo tempo viril e bondoso. Trazia numa das mãos uma pequena garrafa de água de Barbados, e na outra uma espécie de bolsa na qual havia uma caneca e bolachas. Falava francês de um modo bastante inteligível. Ofereceu água de Barbados à senhorita de Kerkabon e ao senhor seu irmão; bebeu com ambos; fê-los beber de novo; e tudo isso com um ar tão simples e natural que o irmão e a irmã ficaram encantados. Ofereceram-lhe seus préstimos, perguntando-lhe quem era e aonde ia. O jovem lhes respondeu. que não sabia ao certo, pois era um simples curioso que quisera saber como eram as costas de França e que, como ali chegara, logo se retiraria.
Julgando, pelo seu acento, que ele não era inglês, tomou o prior a liberdade de lhe perguntar qual o seu país de origem.
— Eu sou hurão – respondeu-lhe o jovem.
A senhorita de Kerkabon, espantada e encantada de ver um hurão que a cumulara de atenções convidou o jovem para jantar; este não se fez de rogado e dirigiram-se os três para o priorado de Nossa Senhora da Montanha.
A miúda e rechonchuda senhorita não tirava dele os seus olhinhos e dizia de vez em quando ao prior:
— Esse rapagão tem uma pele de lírio e rosas! Que bela tez para um hurão!
— Tens razão, minha irmã – dizia o prior.
Ela fazia cem perguntas seguidas, a que o viajante sempre respondia com toda a justeza.
Logo se espalhou o rumor de que havia um hurão no priorado. A alta sociedade do cantão apressou-se em comparecer. O padre de St. Yves veio acompanhado da senhorita sua irmã, jovem baixa-bretã, muito bonita e muito bem educada. O bailio, o recebedor de impostos e suas respectivas mulheres não faltaram à ceia. Colocaram o estrangeiro entre a senhorita de Kerkabon e a senhorita de St. Yves. Todos o olhavam com admiração, todos lhe falavam e interrogavam ao mesmo tempo; o hurão não perdia a compostura. Parecia haver tomado por divisa a de milorde Bolingbroke: nihil admirari. Afinal, cansado de tanto barulho, disse-lhes suavemente, mas com firmeza:
— Senhores, na minha terra fala um depois do outro; como querem que lhes responda, se me impedem de ouvi-los?
A razão sempre faz com que os homens se compenetrem por alguns momentos. Estabeleceu-se um grande silêncio. O senhor bailio, que sempre se apoderava dos estranhos em qualquer parte onde se achasse, e que era o maior perguntador da província, indagou, abrindo uma boca de palmo e meio:
— Como se chama o senhor?
— Sempre me chamaram o Ingênuo, nome este que me foi confirmado na Inglaterra, porque eu sempre digo singelamente o que penso e faço tudo o que quero.
— Mas como, tendo nascido hurão, foi o senhor parar na Inglaterra?
— É que me levaram para lá. Em combate, fui feito prisioneiro pelos ingleses, depois de me haver defendido o mais que pude. E os ingleses, que apreciam a bravura, porque são bravos e tão direitos como os hurões, propuseram-me devolver-me a meus país ou levar-me para a Inglaterra. Aceitei a última oferta, pois gosto imenso de ver terras novas.
— Mas – disse o bailio com o seu tom imponente – como pôde o senhor abandonar assim o seu pai e a sua mãe?
— É que nunca conheci nem pai nem mãe – respondeu o estrangeiro.
Não houve quem não se comovesse, e todos repetiam: Nem pai nem mãe!
— Nós lhe serviremos de pai e mãe – disse a dona da casa ao prior. – Como é interessante esse senhor hurão!
O Ingênuo agradeceu-lhe com uma nobre e altiva cordialidade, e deu-lhe a entender que não tinha necessidade de coisa alguma.
— Vejo, senhor Ingênuo – disse o grave bailio, – que o seu francês é excelente para um hurão.
— Um francês – disse ele que os hurões haviam aprisionado quando eu era pequenino, e a quem dediquei grande amizade, ensinou-me a sua língua; aprendo muito depressa o que quero aprender. Ao chegar em Plymouth, encontrei um desses refugiados franceses a que chamam huguenotes, não sei por quê; fiz com ele alguns progressos no conhecimento de vossa língua e, logo que me pude exprimir inteligivelmente, vim visitar o vosso país, pois aprecio bastante os franceses quando eles não fazem muitas perguntas.
O abade de St. Yves, apesar dessa pequena advertência, perguntou-lhe qual das três línguas preferia: o hurão, o inglês, ou o francês.
— O hurão, sem dúvida nenhuma.
— Será possível? – exclamou a senhorita de Kerkabon. – Eu sempre julguei que o francês fosse a mais bela de todas as línguas, depois do baixo-bretão.
Choveram então as perguntas. Como se dizia fumo em hurão? Taya, respondia o Ingênuo. Como se dizia comer? Essenter, respondia ele. A senhorita de Kerkabon fez absoluta questão de saber como se dizia amar; ele respondeu que isso era trovander, e sustentou, não sem razão, que tais palavras nada ficavam a dever às suas correspondentes em francês e inglês. Trovander pareceu muito bonito a todos os convivas.
O prior, que tinha na biblioteca uma gramática da língua huronesa, que lhe dera de presente o reverendo padre Sérgard-Théodat, recoleto e famoso missionário, retirou-se da mesa um momento, para ir consultá-la. Voltou arquejante de enternecimento e alegria. Reconheceu o Ingênuo como um verdadeiro hurão. Discutiram um pouco sobre a multiplicidade das línguas e chegaram à conclusão de que, se não fora a aventura da torre de Babel, a terra inteira estaria falando francês.
O interrogador bailio, que até então desconfiara um pouco do personagem, começou a considerá-lo com profundo respeito; falou-lhe com mais civilidade que antes, coisa de que o Ingênuo não se apercebeu.
A senhorita de St. Yves estava muito curiosa por saber como se amava na terra dos hurões.
— Praticando belas ações – respondeu ele – para agradar às pessoas que se parecem com a senhorita.
Todos os convivas aplaudiram com admiração. A senhorita de St. Yves enrubesceu, e sentiu-se muito bem. A senhorita de Kerkabon igualmente enrubesceu, mas não se sentiu tão bem, um pouco melindrada de que a galanteria não se dirigisse a ela, mas tinha tão bom coração que isso em nada diminuiu o seu afeto pelo visitante. Perguntou-lhe amavelmente quantas namoradas tivera ele na Hurônia.
— Só tive uma – respondeu o Ingênuo. – Era Abacaba, a boa amiga de minha querida ama; os juncos não eram mais retos, o arminho mais branco, as ovelhas menos macias, as águias menos altivas, e nem os cervos mais rápidos do que Abacaba. Ela perseguia um dia uma lebre pelas vizinhanças, a cerca de cinqüenta léguas da nossa casa. Um algonquino mal educado, que habitava cem léguas além, veto arrebatar-lhe a sua lebre; mal o soube, acorri, derrubei o algonquino com um golpe de maça, amarrei-o e fui depô-lo aos pés de Abacaba. Os pais de Abacaba queriam comê-lo; mas nunca me agradei dessa espécie de festins; restitui-lhe a liberdade e fiz dele um amigo. Abacaba ficou tão impressionada com a minha ação, que me preferiu a todos os seus pretendentes. E ainda me amaria, se não tivesse sido devorada por um urso. Castiguei o urso, usei durante muito tempo a sua pele, mas isso não me consolou.
A senhorita de St. Yves sentia um secreto prazer ao ouvir que o Ingênuo só tivera uma bem-amada e que Abacaba não mais existia; mas não discernia a causa de seu prazer. Todos fixavam os olhos no Ingênuo; louvavam-no muito por não haver permitido que os seus camaradas comessem um algonquino.
O implacável bailio, incapaz de reprimir o seu furor inquisitivo, levou a curiosidade ao ponto de se informar qual era a religião do senhor hurão; se havia escolhido a religião anglicana, ou a galicana, ou a huguenote.
Eu sou da minha religião – disse ele – como o senhor é da sua.
— Ah! – exclamou a Kerkabon – bem se vê que esses engraçados ingleses nem ao menos pensaram em batizá-lo-
— Meu Deus! – dizia a senhorita de St. Yves – como é possível que os hurões não sejam católicos? Será que os RR.PP jesuítas não os converteram a todos?
O Ingênuo assegurou que na sua terra não se convertia ninguém; que nunca um verdadeiro hurão mudara de idéias, e que na sua língua nem sequer havia um termo que significasse inconstância. Estas últimas palavras agradaram extremamente à senhorita de St. Yves.
— Nós o batizaremos, nós o batizaremos – dizia a Kerkabon ao prior; – há de caber-te essa honra, meu caro irmão; faço questão de ser sua madrinha; o senhor de St. Yves o levará à pia; será uma brilhante cerimônia, de que se falará em toda a Baixa Bretanha, o que nos trará grandes honras. Toda a companhia secundou a dona da casa; todos os convivas gritavam:
— Nós o batizaremos!
O Ingênuo respondeu que na Inglaterra deixavam a gente viver como bem quisesse. Deu a entender que a proposta não lhe agradava absolutamente, e que a lei dos hurões valia pelo menos a lei dos baixo-bretões; enfim, disse que iria embora no dia seguinte. Acabaram de esvaziar a sua garrafa de água de Barbados e foram deitar-se.
Depois que o Ingênuo se recolheu ao quarto, a senhorita de Kerkabon e sua amiga a senhorita de St. Yves não puderam deixar de espiar pelo buraco da fechadura, para ver como dormia um hurão. Viram que havia estendido a roupa do leito no soalho e que repousava na mais bela atitude do mundo.


CAPÍTULO II

O hurão, chamado o Ingênuo, é reconhecido por seus parentes.

O Ingênuo, segundo o seu costume, acordou com o sol, ao cantar do galo, que é chamado na Inglaterra e na Hurônia a trombeta do dia. Não era como a gente da alta., que enlanguesce num preguiçoso leito, até que o sol haja feito metade do seu curso, que não pode nem dormir nem levantar-se, que perde tantas horas preciosas nesse estado intermediário entre a vida e a morte, e ainda se queixa de que a vida é demasiado curta.
Já fizera duas ou três léguas, tendo abatido, a funda, umas trinta peças de caça, quando, ao regressar, encontrou o prior de Nossa Senhora da Montanha e sua discreta irmã, que passeavam de touca de dormir pelo seu pequeno jardim. Apresentou-lhes a sua caça e, tirando da camisa uma espécie de talismã que trazia sempre ao pescoço, pediu-lhes que o aceitassem como agradecimento pela sua boa recepção.
— É o que eu tenho de mais precioso – lhes disse ele. Asseguraram-me que eu seria sempre feliz enquanto o usasse. E assim lhes faço este presente, para que sejam sempre felizes.
O prior e sua irmã sorriram comovidos ante a simplicidade do Ingênuo. O referido presente consistia em dois pequenos retratos muito mal feitos, unidos por uma correia bastante sebenta 
A senhorita de Kerkabon perguntou-lhe se havia pintores na Hurônia.
— Não – disse o Ingênuo, – esta raridade me veio de parte de minha ama; o seu marido a adquirira por conquista, despojando alguns franceses do Canadá que haviam travado batalha conosco. É só o que eu sei.
O prior examinava atentamente aqueles retratos; mudou de cor, emocionou-se, as mãos tremeram-lhe.
— Por Nossa Senhora da Montanha – exclamou ele, – creio que é o meu irmão capitão e sua mulher.
A senhorita, depois de os haver examinado com igual emoção, também achou o mesmo. Estavam ambos transidos de espanto e de uma alegria mesclada de sofrimento; ambos se enterneciam; ambos choravam; palpitava-lhes o coração; soltavam gritos; arrancavam um ao outro os retratos; cada qual os tomava e devolvia vinte vezes por segundo devoravam com os olhos os retratos e o hurão; perguntavam-lhe um após outro, e os dois ao mesmo tempo, em que lugar, em que tempo, de que modo, tinham aquelas miniaturas ido parar às mãos da sua ama; comparavam as datas; lembravam-se de ter tido notícias do capitão até a sua chegada à terra dos hurões; época em que mais nada souberam a seu respeito.
Dissera-lhes o Ingênuo que não conhecera nem pai nem mãe. O prior, que era bom observador, notou que o Ingênuo tinha um pouco de barba e sabia que os hurões não a têm. “Seu queixo tem barba; o Ingênuo deve ser, portanto, filho de um europeu. Meu irmão e a minha cunhada não mais apareceram depois da expedição contra os hurões em 1669; meu sobrinho devia ser então criança de peito; a ama huronesa lhe salvou a vida e serviu-lhe de mãe”. Enfim, depois de cem perguntas e cem respostas, o prior e sua irmã concluíram que o hurão era o seu próprio sobrinho. Beijavam-no a chorar; e o Ingênuo ria, sem poder imaginar como é que um hurão poderia ser sobrinho de um prior da Baixa Bretanha.
Acorreram todos; o senhor de St. Yves, que era grande fisionomista, comparou os dois retratos com o rosto do Ingênuo; notou habilmente que ele tinha os olhos da mãe, a testa e o nariz do falecido capitão de Kerkabon, e as faces de ambos. A senhorita de St. Yves, que jamais vira o pai nem a mãe, assegurou que o Ingênuo se lhes assemelhava perfeitamente. Admiravam todos a Providência e o encadeamento dos sucessos deste mundo. Estavam enfim tão persuadidos, tão convictos da origem do Ingênuo, que ele próprio assentiu em ser sobrinho do senhor prior, dizendo que gostaria tanto de o ter por tio como a qualquer outro.
Foram agradecer a Deus na igreja de Nossa Senhora da Montanha, enquanto o hurão, com um ar indiferente, divertia-se em beber em casa.
Os ingleses que o tinham trazido, e que estavam prestes a zarpar, vieram dizer-lhe que era tempo de partir.
— Pelo que vejo – lhes disse o hurão, – vocês não encontraram os seus tios: eu fico por aqui; voltem para Plymouth; dou-lhes de presente todos os meus trapos; não tenho necessidade de mais nada no mundo, pois sou sobrinho de um prior.
Os ingleses velejaram, pouco se lhes dando que o hurão tivesse ou não parentes na Baixa Bretanha.
Depois que o tio, a tia e todas as visitas cantaram o Te Deum; depois que o bailio encheu o Ingênuo de novas perguntas; depois que esgotaram tudo o que o espanto, a alegria e a ternura podem fazer dizer, o prior da Montanha e o padre de St. Yves resolveram batizá-lo o mais depressa possível Mas um hurão adulto de vinte e dois anos não estava no mesmo caso de uma criança, a quem se regenera sem que esta fique sabendo coisa alguma. Era preciso doutriná-lo, e isso parecia difícil; pois o abade de St. Yves supunha que um homem que não nascera na França não podia ter senso comum.
O prior observou à companhia que, se de fato o Ingênuo, seu sobrinho, não tivera a ventura de nascer na Baixa Bretanha, nem por isso deixava de ter espírito, o que se poderia avaliar por todas as suas respostas, e que sem dúvida a natureza muito o favorecera, tanto do lado paterno como do materno.
Perguntaram-lhe primeiro se ele já tinha lido algum livro. Respondeu que lera Rabelais traduzido em inglês e alguns trechos de Shakespeare que sabia de cor; que tinha encontrado esses livros com o capitão do navio que o trouxera da América para Plymouth, e que muito lhe haviam agradado. O bailio não deixou de interrogá-lo sobre os referidos livros.
— Confesso – disse o Ingênuo – que julguei adivinhar qualquer coisa, e não entendi o resto.
A estas palavras, o padre de St. Yves refletiu que era assim que ele próprio sempre havia lido, e que a maioria dos homens não lia de outro modo.
— Com certeza já leu a Bíblia, não? – perguntou ele ao Ingênuo.
— Absolutamente, senhor padre; não estava entre os livros do meu capitão, nem nunca ouvi falar nisso.
— Eis como são esses malditos ingleses – gritava a senhorita Kerkabon. – Farão mais caso de uma peça de Shakespeare, de um plumpunding e de uma garrafa de rum do que do Pentateuco. É por isso que jamais converteram ninguém na América. Certamente são amaldiçoados de Deus; e dentro em pouco nós lhes tomaremos a Jamaica e a Virgínia. Como quer que fosse, mandaram buscar o mais hábil alfaiate de Saint-Malo para vestir o Ingênuo dos pés à cabeça. O grupo separou-se; o bailio foi fazer suas perguntas noutra parte. A senhorita de St. Yves, ao partir, voltou-se várias vezes, a fim de olhar para o Ingênuo; e fez-lhe reverências mais profundas do que nunca as fizera a ninguém em toda a vida.
Antes de partir, o bailio apresentou à senhorita de St. Yves um paspalhão de filho que acabava de sair do colégio; ela, porém, mal lhe dirigiu o olhar, tão preocupada estava com o hurão.


CAPÍTULO III

O hurão, chamado o Ingênuo, é convertido.

O senhor prior, vendo que envelhecia e que Deus lhe enviava um sobrinho para seu consolo, considerou que poderia resignar-lhe o priorado se conseguisse batizá-lo e fazê-lo tomar hábito.
O Ingênuo tinha excelente memória. A firmeza dos órgãos bretão., fortificada pelo clima do Canadá, tornara-lhe a cabeça tão vigorosa que, quando batiam nela, mal o sentia; e, tudo que lhe gravavam dentro, nunca se apagava; jamais esquecera coisa alguma. E tanto mais viva e nítida era a sua concepção, porquanto a sua infância não fora sobrecarregada com as inutilidades e tolices que acabrunham a nossa, de modo que as coisas penetravam num cérebro sem nuvens. O prior resolveu enfim fazê-lo ler o Novo Testamento. O Ingênuo devorou-o com grande prazer, mas, não sabendo em que tempo nem em que local haviam acontecido as aventuras ali referidas, não duvidou que o teatro dos acontecimentos fosse a Baixa Bretanha, e jurou que cortaria o nariz e as orelhas a Caifás e a Pilatos, se algum dia encontrasse esses marotos.
O tio, encantado com essas boas disposições, o esclareceu em pouco tempo; louvou o seu zelo, mas fez-lhe ver que esse zelo era inútil, visto que tais pessoas haviam morrido há cerca de mil seiscentos e noventa anos. Em breve o Ingênuo sabia quase todo o livro de cor. Apresentava algumas vezes objeções que deixavam o prior em grandes dificuldades, obrigando-o a ir consultar o padre de St. Yves, o qual, não sabendo o que responder, mandou chamar um jesuíta bretão para completar a conversão do Ingênuo.
Enfim a graça operou; o Ingênuo prometeu fazer-se cristão; e não teve a menor dúvida de que deveria começar por ser circuncidado.
— Pois – dizia ele – não vejo no livro que me deram a ler um único personagem que não o tenha sido; é, pois, evidente que devo fazer o sacrifício do meu prepúcio: e quanto mais cedo, melhor.
Não vacilou. Mandou chamar o cirurgião da aldeia e pediu-lhe que lhe fizesse a operação, esperando alegrar infinitamente a senhorita de Kerkabon e a toda a companhia, depois que o fato estivesse consumado. O cirurgião, que nunca fizera a operação referida, avisou a família, que bradou aos céus. A boa Kerkabon temeu que seu sobrinho, que parecia resoluto e expedito, fizesse em si mesmo a operação com desastrada imperícia, e disso resultassem tristes conseqüências pelas quais as damas sempre se interessam por bondade de coração.
O prior retificou as idéias do hurão; fez-lhe ver que a circuncisão não estava mais em moda, que o batismo era muito mais suave e salutar, que a lei da graça não era como a lei da austeridade. O Ingênuo, que tinha bastante bom-senso e retidão, discutiu, mas afinal reconheceu o seu erro, coisa muito rara na Europa em gente que discute; prometeu enfim submeter-se ao batismo quando bem quisessem.
Antes era preciso confessar-se, e ai estava a maior dificuldade. O Ingênuo, que sempre trazia no bolso o livro que o tio lhe dera, não via ali nenhum apóstolo que se houvesse jamais confessado, e isso o tornava bastante rebelde. O prior fechou-lhe a boca, mostrando-lhe, na epístola de S. Jaques o Moço, estas palavras que causam tanta espécie aos heréticos: Confessei-vos uns aos outros. O hurão não objetou mais nada e confessou-se a um recoleto. Terminada a confissão, tirou o frade do confessionário, e, segurando vigorosamente o seu homem, obrigou-o a pôr-se de joelhos, dizendo-lhe:
— Vamos, meu amigo. Está escrito: Confessai-vos uns aos outros. Eu te contei os meus pecados; não sairá daqui sem que me hajas contado os teus.
Assim falando, apoiava o joelho contra o peito da parte adversária. O padre começa a soltar gritos que fazem reboar a igreja. Acodem ao barulho, vêem o catecúmeno a esmurrar o monge em nome de S. Jaques o Moço. Mas era tão grande a alegria de batizar um baixo-bretão hurão e inglês, que passaram por alto essas singularidades. Houve até muitos teólogos que pensaram não ser necessária a confissão, visto que o batismo servia para tudo.
Combinaram a data com o bispo de Saint-Malo, que lisonjeado, como era de esperar-se, por batizar um hurão, chegou em pomposa equipagem, acompanhado da sua clerezia. A senhorita de St. Yves, bendizendo a Deus, pôs o seu mais belo vestido e mandou chamar uma cabeleireira de St. Malo, para brilhar na cerimônia. O inquiridor bailio acorreu com toda a província. A igreja estava magnificamente paramentada; mas, quando chegou a hora de levar o hurão para a pia batismal, nada de hurão.
O tio e a tia o procuraram por toda parte. Julgaram que estivesse a caçar, segundo o seu costume. Todos os convidados percorreram os matos e aldeias vizinhas: nem traços do hurão.
Começava-se a temer que tivesse ele voltado para a Inglaterra. Lembravam-se de tê-lo ouvido dizer que gostava muito desse país. O prior e a sua irmã achavam-se persuadidos de que ali não batizavam ninguém, e tremiam pela alma do sobrinho. O bispo estava confuso e prestes a regressar; o prior e o padre de St. Yves desesperavam-se. A senhorita de Kerkabon chorava; a senhorita de St. Yves não chorava, mas lançava profundos suspiros que pareciam testemunhar o seu gosto pelos sacramentos. Passeavam elas tristemente ao longo dos salgueiros e caniços que marginam o ribeiro de Rance, quando avistaram no meio da corrente um grande vulto branco com as mãos cruzadas no peito. Soltaram um grito e desviaram-se. Mas a curiosidade venceu logo qualquer outra consideração: puseram-se ambas a avançar cautelosamente entre os caniços e, quando se asseguraram de que não eram vistas, resolveram certificar-se do que se tratava.


CAPÍTULO IV

O Ingênuo batizado.

O prior e o abade, tendo acorrido, perguntaram ao Ingênuo o que estava fazendo ali.
— Ora essa! Espero o batismo. Faz uma hora que estou dentro d’água. E não é nada direito me deixarem aqui a gelar.
— Meu querido sobrinho – disse-lhe carinhosamente o prior, – não é assim que se fazem batizados na Baixa Bretanha; veste a tua roupa e vem conosco.
Ouvindo tais palavras, a senhorita de St. Yves disse baixinho à companheira:
— Será que ele já vai vestir-se?
O hurão, no entanto, retrucou ao prior:
— Agora o senhor não me convencerá como da outra vez; desde então tenho estudado bastante e estou certo de que não se batiza de outra maneira. O eunuco da rainha Candace foi batizado num rio: desafio o senhor a que me mostre no livro que me deu se alguma vez se batizou a não ser assim. Ou não serei batizado, ou serei batizado no rio.
Não adiantou alegar que haviam mudado os costumes. O Ingênuo era cabeçudo, pois era bretão e hurão. Voltava sempre ao eunuco da rainha Candace. E, embora a senhorita sua tia e a senhorita de St. Yves, que o tinham observado dentre os salgueiros, estivessem no direito de dizer-lhe que não lhe competia citar semelhante homem, abstiveram-se de qualquer interferência, tamanha era a sua discrição. O próprio bispo veio falar-lhe, o que já era muito; mas não adiantou: o hurão discutiu com o bispo.
— Mostre-me – lhe disse ele – no livro que o tio me deu, um único homem que não se haja batizado no rio, e eu farei tudo o que o senhor quiser.
A tia, desesperada, havia notado que o sobrinho fizera uma reverência mais profunda à senhorita de St. Yves do que às outras pessoas, e que nem ao senhor bispo saudara com aquele respeito mesclado de cordialidade que testemunhara à formosa moça. A senhorita de Kerkabon tomou o partido de dirigir-se a esta naquele grande embaraço; pediu-lhe que usasse da sua influência para induzir o hurão a batizar-se à maneira dos bretões, não acreditando que o seu sobrinho jamais pudesse ser cristão se teimasse em ser batizado na água corrente.
A senhorita de St. Yves enrubesceu com o secreto prazer que sentia em ser encarregada de tão importante missão. Aproximou-se modestamente do Ingênuo e, apertando-lhe a mão com um nobre gesto, disse-lhe:
— Será que não fará nada por mim?
E, assim falando, baixava os olhos e erguia-os com enternecedora graça.
— Ah! farei tudo o que a senhorita quiser, tudo o que me ordenar: batismo de água, batismo de fogo, batismo de sangue; não há nada que eu possa recusar-lhe.
A senhorita de St. Yves teve a glória de conseguir com duas palavras o que não haviam conseguido nem as solicitações do prior, nem as sucessivas interrogações do bailio, nem as razões do senhor arcebispo. Ela sentiu o seu triunfo; mas não lhe avaliava ainda toda a extensão.
O batismo foi administrado e recebido com toda a decência, toda a pompa, toda a distinção possível. O tio e a tia cederam ao senhor padre de St. Yves e à sua irmã a honra de servir de padrinhos ao Ingênuo. A senhorita de St. Yves radiava de alegria de se ver madrinha. Não sabia ao que a sujeitava esse grande título; aceitou a honra sem lhe conhecer as fatais conseqüências.
Como nunca houve cerimônia que não fosse seguida de um bródio, sentaram-se à mesa ao sair do batismo. Os espirituosos da Baixa Bretanha objetaram que o vinho não deveria ser batizado. O senhor prior dizia que o vinho, segundo Salomão, alegra o coração do homem. O senhor bispo acrescentava que o patriarca Juda amarrava o seu jumento à vinha e mergulhava o manto no sangue da uva e que era uma triste coisa não ser possível fazer o mesmo na Baixa Bretanha, a que Deus negara as vinhas. Cada qual porfiava em dizer um gracejo sobre o batismo do Ingênuo e dirigir galanteios à madrinha. O bailio, sempre interrogante, perguntava ao hurão se este seria fiel às suas promessas.
— Como quer que eu falte às minhas promessas – disse o hurão, – quando as fiz entre as mãos da senhorita de St. Yves?
O hurão entusiasmou-se; bebeu à grande pela saúde da madrinha.
— Se eu tivesse sido batizado por suas mãos – disse ele, – a água fria que recebi sobre a nuca me teria queimado.
O bailio achou a frase muito poética; ignorava o quanto a alegoria é corriqueira no Canadá. A madrinha, essa, sentiu-se extremamente satisfeita.
— O Ingênuo recebera na pia batismal o nome de Hércules. O bispo não cessava de perguntar quem era esse padroeiro de quem nunca ouvira falar. O jesuíta, que era muito erudito, respondeu-lhe que se tratava de um santo que, fizera doze milagres. Havia, na verdade, um décimo-terceiro que valia os outros doze, mas não ficava bem a um jesuíta referi-lo: era o de haver transformado cinqüenta donzelas em mulheres, numa única noite. Um engraçado pôs-se a gabar entusiasticamente o referido milagre. Todas as damas baixaram os olhos; e julgaram, pelo aspecto do Ingênuo, que era este digno do santo de que trazia o nome.


CAPÍTULO V

O Ingênuo enamorado.

Cumpre confessar que, depois daquele batizado e daquele banquete, a senhorita de St. Yves começou a desejar ardentemente que o senhor bispo ainda a fizesse participante de algum belo sacramento com o senhor Hércules Ingênuo. No entanto, como era bem educada e muito recatada, não ousava confessar a si mesma os seus ternos sentimentos; mas, se lhe escapava um olhar, uma palavra, um gesto, um pensamento, envolvia tudo isso num véu de pudor infinitamente amável Era terna, pressurosa, mas comedida.
Logo que o senhor bispo partiu, o Ingênuo e a senhorita de St. Yves se encontraram sem dar tento que se procuravam. Falaram-se, sem imaginar o que diriam. O Ingênuo lhe disse primeiro que a amava de todo o coração, e que a bela Abacaba, por quem estivera louco na sua terra, não lhe chegava aos pés. Respondeu-lhe a senhorita, com o seu ordinário recato, que era preciso o quanto antes falar nisso ao senhor prior seu tio e à senhorita sua tia, e que, da sua parte, ela iria dizer duas palavras ao seu caro irmão, o padre de St. Yves, e que esperava um consentimento geral.
O Ingênuo respondeu-lhe que não tinha necessidade do consentimento de ninguém; que lhe parecia extremamente ridículo ir perguntar a outros o que deviam fazer; que, quando dois estão de acordo, não há necessidade de um terceiro para acomodá-los.
— Não consulto ninguém – alegou ele – quando tenho vontade de comer, de caçar, ou de dormir. Bem sei que, em, amor, é bom ter o consentimento da pessoa a quem se deseja: mas, como não é nem do meu tio nem da minha tia que estou enamorado, não é a eles que me devo dirigir neste assunto; e, quanto à, senhorita, poderá muito bem dispensar o senhor padre de St. Yves.
A bela bretã, como é de imaginar, deve ter empregado toda a delicadeza de seu espírito para limitar o hurão ao terreno do decoro. Chegou até a agastar-se e logo se apaziguou. E não se sabe como teria terminado tal conversação se, ao anoitecer, o senhor abade não houvesse levado a irmã para a sua abadia. O Ingênuo deixou que os tios se fossem deitar, pois estavam fatigados da cerimônia e do longo banquete, e passou parte da noite a fazer versos para a sua bem amada, em hurão: pois é sabido que não há país no mundo em que o amor não torne poetas os namorados.
No dia seguinte, após o almoço, assim lhe falou o tio, em presença da senhorita Kerkabon, que se achava toda comovida:
— Louvado seja Deus, meu querido sobrinho, por teres a honra de ser cristão e bretão! Mas isso não basta; já estou ficando velho; meu irmão apenas deixou um cantinho de terra que pouco vale; tenho um bom priorado: se quiseres ao menos fazer-te subdiácono, como o espero, resignarei meu priorado em teu favor, e viverás folgadamente, depois de ter sido o consolo da minha velhice.
— Meu tio – respondeu-lhe o Ingênuo, – que bom proveito lhe faça! Viva quanto puder. Quanto a mim, não sei o que é subdiácono, nem o que quer dizer resignar; mas tudo me ficará bem, desde que tenha a senhorita de St. Yves à minha disposição.
— Meu Deus, meu sobrinho! Que me dizes? Amas então loucamente a essa linda senhorita?
— Sim, meu tio.
— Ai, meu sobrinho! É impossível casares com ela.
— Nada é mais possível, meu tio; pois ela, ao partir, não só me apertou a mão significativamente, como prometeu que me pediria em casamento; e sem dúvida nenhuma a desposarei.
—.Impossível, te digo eu; ela é tua madrinha; e é um terrível pecado para uma madrinha apertar assim a mão do afilhado; não é permitido casar com a própria madrinha; a isto se opõem as leis divinas e as leis humanas.
— Hom’essa, meu tio! Deixe de brincadeira: por que há de ser proibido casar com a madrinha, quando ela é moça e bonita? Não vi no livro que o senhor me deu que não ficasse bem desposar as moças que ajudam a gente a ser batizado. Todos os dias descubro que fazem aqui uma infinidade de coisas que não estão no seu livro, e que nada fazem de tudo o que ele diz. Confesso-lhe que isso me espanta e aborrece. Se me privarem da bela St. Yves, sob pretexto de batismo, fique o senhor avisado de que a tiro de casa e me desbatiso.
O prior ficou confuso; a irmã pôs-se a chorar.
— Meu caro irmão – disse ela, – o nosso sobrinho não deve perder a alma; o nosso Santo Padre lhe poderá conceder dispensa, e então ele poderá ser cristãmente feliz com aquela a quem ama.
O Ingênuo beijou a tia.
— Quem é esse amável homem – disse ele ,- que favorece tão bondosamente os amores dos jovens? Quero ir falar-lhe imediatamente.
Explicaram-lhe o que era o Papa, e o Ingênuo ficou ainda mais espantado do que antes:
— Não há uma palavra de tudo isso no seu livro, meu estimado tio; tenho viajado, conheço o mar; estamos na costa do Oceano; e eu vou deixar a senhorita de St. Yves para ir pedir permissão de amá-la a um homem que mora além do Mediterrâneo, a quatrocentas léguas daqui, e cuja língua desconheço?! Palavra, isso é de um ridículo incompreensível. Vou é falar imediatamente com o padre de St. Yves, que mora apenas a uma légua, e garanto-lhe que desposarei hoje mesmo aquela a quem amo.
Estava ainda a falar quando entrou o bailio, o qual, segundo o seu costume, lhe perguntou aonde ia.
— Vou casar-me – disse o Ingênuo, a correr. E dali a um quarto de hora se achava ele em casa da sua bela e querida bretã, que ainda estava dormindo.
— Ah, meu irmão – dizia a senhorita de Kerkabon ao prior, – jamais farás um subdiácono do nosso sobrinho.
O bailio ficou descontentíssimo com tal viagem, pois pretendia casar o seu filho com a St. Yves; e esse filho era ainda mais tolo e insuportável que o pai.


CAPÍTULO VI

O Ingênuo chega à casa de sua amada e fica deveras furioso.

Logo que chegou, perguntara o Ingênuo a uma criada velha onde era o quarto da sua querida, e, sem perda de tempo, empurrara fortemente a porta mal fechada, correndo para o leito. Acordando-se em sobressalto, exclamara a senhorita:
— Como?! És tu? Pára, pára! Que é que estás fazendo? Estou casando contigo – respondera ele. E com efeito a desposaria se ela não se houvesse debatido com toda a honestidade de uma pessoa que recebeu educação.
O Ingênuo não queria saber de brincadeira; achava todas aquelas gatimônias muito fora de propósito:
— Não era assim que fazia a senhorita Abacaba, a minha primeira namorada; não tens nenhuma seriedade; prometeste-me casamento e não queres casar: estás infringindo as leis mais elementares da honra; hei de ensinar-te a manteres a tua palavra, e te porei no caminho da virtude.
O Ingênuo possuía uma virtude varonil e intrépida, digna do seu padroeiro Hércules, cujo nome recebera na pia; ia exercê-la em toda a sua extensão quando, aos lancinantes gritos da senhorita, mais discretamente virtuosa, acudiu o honrado padre de St. Yves, com a sua governante, um velho criado devoto e um padre da paróquia.
— Meu Deus, meu caro vizinho – lhe disse o abade, – que vem a ser isso?
— É o meu dever – replicou o jovem. – Estou simplesmente cumprindo a minha promessa, que é sagrada.
A senhorita de St. Yves recompôs-se, enrubescendo. Levaram o Ingênuo para outro quarto. O abade censurou-lhe a monstruosidade do seu procedimento. O Ingênuo defendeu-se, alegando os privilégios da lei natural, que conhecia perfeitamente. O abade pôs-se a provar que a lei positiva devia ter precedência e que, se não fossem as convenções estabelecidas entre os homens, a lei da natureza seria quase sempre uma violação natural.
— Fazem-se mister – disse ele – notários, padres, testemunhas, contratos, dispensas.
— Respondeu-lhe o Ingênuo com a reflexão que sempre fizeram os selvagens:
— Muito desonestos devem ser vocês, visto que é necessário tomar tantas precauções.
Bastante trabalho teve o sacerdote em resolver tal dificuldade.
— Confesso – disse ele – que há muitos inconstantes e velhacos entre nós, como haveria entre os hurões, se estes estivessem reunidos em uma grande cidade; mas também há homens sábios, honestos, esclarecidos, e foram estes que fizeram as leis. Quanto mais honrado é um homem, mais deve submeter-se a elas; assim se dá exemplo aos viciosos, que respeitam um freio que a virtude se impôs a si mesma.
Tal resposta impressionou o Ingênuo. Já ficou dito que tinha ele um espírito justo. Acalmaram-no com lisonjas; encheram-no de esperanças: ciladas em que sempre caem os homens dos dois hemisférios; trouxeram até, à sua presença, a senhorita de St Yves, depois que esta fez convenientemente a sua toilette. Tudo se passou no maior decoro. Mas, apesar de toda essa decência, os olhos flamejantes do Ingênuo Hércules faziam baixar os da sua amada e tremer a assistência.
Tiveram imenso trabalho para o reconduzir a seus parentes. Ainda desta vez foi preciso recorrer à influência da bela St. Yves; quanto mais sentia esta o seu poder sobre ele, mais o amava. Obrigou-o a partir, com o que ficou sinceramente aflita. Afinal, depois que ele se foi, o abade que, além de irmão mais velho da senhorita de St. Yves, era também seu tutor, tomou o partido de subtrair sua pupila às solicitudes daquele terrível namorado. Foi aconselhar-se com o bailio, que, tendo sempre em vista o casamento de seu filho com a irmã do abade, alvitrou que se mandasse a pobre moça para um convento. Foi um golpe terrível: uma indiferente que fosse metida num convento haveria de pôr-se aos gritos; quanto mais uma enamorada, e tão apaixonada quanto honesta; era mesmo de desesperar.
O Ingênuo, de volta ao priorado, contou tudo, o que acontecera com a sua costumeira simplicidade. Recebeu as mesmas censuras, que lhe produziram algum efeito no espírito e nenhum nos seus sentidos. Mas, no dia seguinte, quando pretendeu voltar à casa de sua amada, para discutir com ela sobre a lei natural e a lei convencional, disse-lhe o senhor bailio, com insultuosa alegria, que a senhorita de St. Yves se achava num convento.
— Pois bem – disse ele, – irei discutir com ela nesse convento.
— Impossível – disse o bailio. E longamente lhe explicou que coisa era um convento; esclareceu que tal palavra vinha do latim conventus, que significa assembléia; e o hurão não atinava por que não poderia ser admitido numa assembléia. Ao saber que essa assembléia era uma espécie de prisão onde mantinham encerradas as moças – coisa horrível, desconhecida entre os hurões e os ingleses, – ficou tão furioso como o seu padroeiro Hércules quando Eurites, rei da Ecália, não menos cruel que o padre de St. Yves, lhe recusou a linda Iola sua filha, não menos linda que a irmã do padre. Queria incendiar o convento, roubar a namorada, ou morrer com ela em meio às chamas.
A senhorita de Kerkabon, desesperada, renunciava mais do que nunca a todas as esperanças de ver o seu sobrinho subdiácono, e dizia, a chorar, que ele tinha o diabo no corpo depois que fora batizado.